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| Galo Campina |
A cada ano renovamos nossas forças, na esperança de que em
um novo ano tudo será melhor e diferente. Contudo, todos somos vítimas da maneira
como o ocidental encontrou para fatiar o tempo, colhendo-o em dias, meses, e
anos. Essa ação nos torna caçadores ferozes do tempo, que não nos dá tempo... Perseguidores
implacáveis de um dia que não tem 25, 26, 27 ou até 30 horas para fazermos tudo
aquilo que planejamos para suas 24 horas.
Infelizmente, a "velocidade" tem cada dia mais
nos tirado o tempo que nos resta para experimentarmos os cheiros, as formas e os
sabores das coisas que lutamos tanto para conquistar rapidamente.
Com a chegada do
"moderno", a velocidade se tornou a protagonista da vida e do futuro
de todo ser humano. No seu discurso, o belo e o adequado teriam que ser vividos
e absorvidos com eficiência e rapidez...
Foi em 1909 com a publicação do “Manifesto
Futurista”, do poeta italiano Filippo Marinetti, anunciou que o ser humano fora
convidado a rejeitar o moralismo e o passado, exaltar a violência, e propor um
novo tipo de beleza, baseada na velocidade. Dizia Marinetti: "Declaramos que a magnificência do
mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de
corrida com a carroçaria enfeitada por grandes tubos de escape como serpentes
de respiração explosiva… um carro tonitruante que parece correr entre a
metralha é mais belo do que a Vitória de Samotrácia".
O “Futurismo” se
traduziu como uma influência contundente na mentalidade "moderna"
para o século XX, que produziu uma estética do consumo nas artes e na
comunicação moderna. O arquiteto Antonio Sant'Elia, ligado ao movimento
futurista, parecia prever em seus desenhos o ritmo frio e árido das relações humanas
nas grandes cidades e a desumanização dos mega centros.
Hoje, se nosso
computador não for "veloz", nos estressamos; se nosso carro não for
rápido, nos aborrecemos; se nossa conversa não for breve, nos chateamos; se
nossa resposta não for instantânea, estressamos, aborrecemos e chateamos os
outros... Até, se o nosso prazer não for rápido, ficamos nervosos... O mais
irônico é que, com toda essa rapidez, e com tempo que ganhamos, o qual deveria
nos sobrar, ainda ficamos com a sensação de que nos falta tempo... Queremos e “devemos”
ser rápidos em tudo, mesmo assim não estamos satisfeitos com o que nos resta...
Que beleza estranha
apresentou Marinete e Sant'Elia...
A verdade é que temos uma
sensação que a vida esta passando, e que não estamos tendo tempo para viver. Os
filhos crescem e não vemos, os pais envelhecem e não honramos, as amizades vão
e não nos despedimos, a vida passa e não vivemos... Podemos nos perguntar então:
Quem abraçamos este ano? Quantas amizades fizemos? Quantos sorrisos ofertamos? Quanto tempo ganhamos para dar?
Se você correu muito
neste até aqui, é possível que não tenha feito nada disso...
Quem corre muito não vê muita coisa.
Não saboreia, não cheira, não toca...
Pense bem... Você já
viu o orvalho beijando a flor? Já ouviu o canto do "galo de campina"?
Já molhou os pés no riacho durante uma caminhada?
Disse, diferentemente de Marinetti, o
saudoso Luiz Gonzaga - o Rei do Baião, que para encontramos a beleza da vida
devemos aprender a "andar"... Quando conhecemos o valor de “saber
andar a pé” é que entendemos a vida e tudo que passamos nela.
Gonzaga nos convida a "desacelerar",
na sua poesia intitulada "Estrada de Canindé":
"Ai,
ai, que bom. Que bom, que bom que é / Uma estrada e uma cabocla / Com uma gente
andando a pé.
Ai,
ai, que bom / Que bom, que bom que é / Uma estrada e a lua branca / No sertão
de Canindé.
Automóvel lá nem sabe se é homem ou se é mulhé / Quem é
rico anda em burrico / Quem é pobre anda a pé.
Mas o pobre vê na estrada / O orvalho beijando as flô / Vê
de perto o galo campina / Que quando canta muda de cor.
Vai moiando os pés no riacho / Que água fresca, nosso
Senhor.
Vai olhando coisa a grané / Coisas qui, pra mó de vê / O
cristão tem que andar a pé...".
Desacelere!!! Saboreie,
cheire, respire, sorria, abrace, beije, ame, veja...
Tem coisas na vida que
para se vê, você tem que “saber andar a pé”...
O que você tem
visto?

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