Certa vez, estava cavando um buraco na areia com a intenção de proporcionar
uma possível “piscininha” para meu pequeno Samuel. Enquanto meu filho brincava
faceiro naquele “buraco-banherinha”, eu pensava e sonhava no seu futuro, e sobre
que futuro esperava por ele... Pensava no valor da vida humana.
Na verdade estamos
cercados de buracos e com eles estão as nossas constatações, contemplações, indignações
e reações. Procuramos pelo buraco de fechadura, fechamos o buraco na parede, o
Camelo às vezes não passa pelo “buraco da agulha”, por vezes somos testemunhas
de um buraco de bala, sofremos com um buraco no dente, tostamos com o buraco na
camada de ozônio, perdemos com os buracos das estradas, costuramos os buracos
na roupa, nos molhamos com os buracos no telhado e tantos outros que estão por
perto... Temos também buracos em nossa pele, em nossos órgãos, em nosso corpo, pois
se fossemos tapados certamente morreríamos...
Contudo, os presentes
buracos em nós também presenciam o aparecimento de novos buracos da existência
humana.
Foi durante a conhecida
tragédia da Rua Capri em janeiro de 2007, na capital paulista, que lembrei o
quanto estamos muitas vezes esquecendo a nossa relação com a vida, e da
capacidade que os buracos têm de promover mudanças no ser humano. Provocado
pela intensidade das chuvas do mês de janeiro na capital paulista, o buraco da
rua Capri em meio as obras da linha 4 do metrô mais perecia uma cratera
promovida por um meteoro.
Na época, o súbito
desmoronamento das estruturas da nova linha do metrô paulista engoliu terra, tragou
pessoas, abocanhou veículos e ainda comprometia a vida de todos ao seu redor. O
barulho urbano que havia nas imediações da “Capri” deu lugar a um silêncio
quase sagrado promovido pela angustia dos parentes das vítimas, pela coragem
dos trabalhos subterrâneos dos bombeiros e pela presença atônita de todos que
refletiam, diante daquela imagem, sobre as dimensões da vida humana.
Esse fato nos leva a pensar
sobre quem poderia estar ali naquele dia e quem foi vitima do “imprevisto buraco”.
Temos que olhar para
a vida reconhecendo que Deus é um Deus de Vida e não de morte, e que a morte só
pertence a nossa condição limitada. Para ELE, você e eu temos um valor eterno e
imensurável, que não está egoisticamente preocupado com quem está, ou não,
passando pela Rua Capri neste momento.
Mas qual o “tamanho”
do buraco em que sua vida está, ou contém?
Lembrei de um outro
buraco que me deixou indignado em recente notícia. Um jovem australiano pôs a própria vida
à venda no site de leilões na internet, e recebeu como maior oferta feita 7.500
dólares australianos - cerca de 12,5 mil Reais - bancada por um britânico. Nicael
Holt, 24, surfista e aluno de filosofia da Universidade de Wollongong, ofereceu
um "pacote", que incluía nome, número de telefone, todos os seus
pertences pessoais - roupas, cerca de 300 CDs e uma bicicleta usada -, além de
um curso de adestramento de quatro semanas para se tornar “Holt”, que implicava
em aprender suas habilidades, incluindo surfe, skate e alpinismo.
Isso é que é um buraco... Um buraco na
alma.
De fato, o buraco
mais poderoso, mortífero, que mais fere e suga a vida humana é o buraco na
alma. Uma alma furada não sabe o valor da vida. Existe um vazio na alma que só
pode ser preenchido com a forma correta, e tudo que usarmos para preenchê-lo
será tarefa em vão, se não descobrirmos humildemente que ele tem a forma de
Deus.
Quando reconhecemos
que esse buraco existe, reconhecemos também que há uma busca por nós mesmos,
por Deus e pelo nosso semelhante. Quando reconhecemos o valor da vida, até quando
somos vitimas do buraco da saudade. Podemos fazer desse um cálice de amor, fazer
desse uma “piscina na areia” para outras vidas brincarem a nossa volta.
Atentemos com os
buracos ao nosso redor, mas jamais esquecendo que um buraco na alma pode
insistir em engolir seus sonhos e suas esperanças. Esse precisa ser preenchido
com a coisa certa, e assim saberemos o valor que tem a vida humana.
Não venda sua vida...
Tire a vida no buraco... E faça de alguns buracos pequenas piscinas na areia
para brincarmos juntos...

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