Tanto as
frutas como as relações precisam ser colhidas. Ambas têm suas estações
apropriadas e caminhos próprios para alcançar o fruto nas fruteiras. A grande verdade
desta espiritualidade é que alcançamos e somos alcançados pelas pessoas,
dependendo qual fruta nós somos. Lembro-me de duas frutas que estão presentes
na minha vida e em meus sabores, são elas: o Coco e o Caju. São frutas
maravilhosas e com suas peculiaridades, porém para quem conhece um coqueiro e
um cajueiro percebe que nessas fruteiras somos desafiados também a olharmos
para os caminhos que trilhamos até seus frutos.
Qual o caminho
até o coco? Bem, o coqueiro é uma fruteira que chega a trinta metros de altura,
com seu tronco cilíndrico, nervoroso e áspero, ao qual se encerra em folhas
pinadas. É uma verdadeira arte chegar até sua fruta, tornando atlético e
artístico o ofício de um “tirador de coco”. Esses “catadores” colhem as frutas,
munidos de cordas que enlaçam em seus pés e ao troco da árvore, fazendo um
frenético jogo de pernas e braços até alcançar os cachos da fruteira com seu
facão. Para complicar a imagem dessa fruta, na origem do termo "coco"
temos a declaração de medo, pois foi nominada pelos portugueses numa viagem de
Vasco da Gama à Índia (1497-1498), a partir da associação da aparência do
fruto, em que o endocarpo e os poros de germinação assemelham-se à face de um
"Coco" – um monstro do
imaginário ibérico com que se assusta as crianças; um Papão; um Ogro.
Como é difícil
e árduo alcançar o coco... Mas, quando conseguimos tudo muda... O coco é uma
das frutas mais ricas e nutritivas que conhecemos. Recordo-me do doce
“baba-de-moça”, uma iguaria pernambucana, feito por minha mãe com a carne do
coco verde... indescritível! Não esqueço apreciar uma água-de-coco bem gelada
no calor da beira-mar recifense.
Existem relações
com pessoas que são semelhantes ao caminho do coco, num primeiro momento são
ásperas, rudes, duras, difíceis de alcançar. Entretanto, quando nos esforçamos
e chegamos até seus frutos, conseguimos colher e conhecer a doçura, a beleza, e
a riqueza de suas almas.
E o caminho até
o caju? O cajueiro é uma fruteira exótica e belíssima, pois em seus frutos,
geralmente carnosos, são encontrados vários e sedutores tons
vermelho-amarelados, amarelos e rosados. Não existe muita dificuldade para
chegar até o fruto. O tronco do cajueiro é tortuoso e relativamente baixo,
fazendo com que até uma criança que estendendo o seu braço em direção aos
galhos colha facilmente um caju. Porém o caju nos “engana”...
O caju
trata-se de um pseudofruto, pois o que entendemos popularmente como
"caju" se constitui de duas partes: a fruta propriamente dita, que é
a castanha; e seu pedúnculo floral, pseudofruto geralmente confundido com o
fruto. Suas folhas têm uma resina tóxica à qual só os macacos são imunes. Seu
sabor apesar de doce é travoso, e a mordida generosa na carne da fruta enoda
rapidamente os dentes de seu degustador. Ou seja, aquilo que vemos é o “pseudo”...
Existem
pessoas que nos confundem como um caju. São de fácil acesso, de bela aparência,
sedutoras, e num primeiro momento conquistam a simpatia de todos. No entanto,
quando conhecemos seus frutos, descobrimos a amargura, o jeito travoso, as nodas
que mancham, e as toxinas que oferecem...
Cada um sabe a
dor e a delícia de ser o que é... Quem sabe o tão falado “Carpe Diem” não fosse “colha a relação” ao invés de “colha o
dia”... Seria o “Carpe Relationem” ! Como
começar então? Descobrindo o quanto podemos ser mais saborosos...

Comentários
Postar um comentário