Em décadas passadas, muitas famílias perderam
seus entes queridos em incêndios em edifícios, como no caso do Andraus, do
Joelma e do Andorinha, e agora o caso da Boate Kiss em Santa Maria... As
tragédias acompanham a humanidade na história das civilizações. Elas não
acontecem todos os dias, se assim não fossem as empresas de seguro não viriam a
existir...
Foi em 1755 que um terremoto que acometeu
Lisboa e matou mais de 90 mil portugueses, arrasando praticamente toda a
cidade, a qual foi reconstruída com o ouro de Minas Gerais... Lembro que nesse
terremoto foi firmada a primeira resolução prática para as tragédias. O Marques
de Pombal, conselheiro real, quando foi acometido pela pergunta de seu Rei Dom
José: "E agora?". Respondeu com a seguinte proposição: “Enterrai os
mortos, Fechai os portos e Cuidai dos vivos!”.
Transformada em resolução a ação levou a
organizar-se equipes de bombeiros para combater os incêndios e se recolher os
milhares de cadáveres para evitar epidemias. Epidemias essas que hoje também
podem ser morais e de sensacionalismos...
O fechar os portos impediria que algo de novo acontecesse, e que ninguém
que chegasse doente ao porto entrasse na cidade promovendo novas doenças... A
blindagem é sempre necessária para que nada atrapalhe quem quer reconstruir o
novo... Por fim, cuidar de quem está vivo garante o futuro, pois quem constrói
o futuro são os vivos e não os mortos... O ministro e o rei encomendaram
projetos aos arquitetos e engenheiros reais, e em menos de um ano depois do
terramoto já não se encontravam em Lisboa ruínas e os trabalhos de reconstrução
iam adiantados. O rei desejava uma cidade nova e ordenada e grandes praças e
avenidas, largas e retilíneas, marcando a planta da nova cidade. Reza a lenda
ter sido à época perguntado ao Marquês de Pombal para que serviriam ruas tão
largas, ao que este respondeu que “um dia hão de achá-las estreitas”…
Mas, o que o Marques de Pombal deixou como
grande legado para Lisboa não foi a reconstrução da cidade, mas algo ainda mais
concreto. Ele ordenou um inquérito, enviado a todas as paróquias do país para
apurar a ocorrência e efeitos do sismo. O questionário incluía as seguintes
questões: Quanto tempo durou o sismo? Quantas réplicas se sentiram? Que tipo de
danos causou o sismo? Os animais tiveram comportamento estranho? Que aconteceu
nos poços? As respostas estão ainda arquivadas na Torre do Tombo. O inquérito
do Marquês do Pombal foi a primeira iniciativa de descrição objetiva no campo
da sismologia, razão pela qual é considerado um precursor da ciência da
sismologia. Assim, seu legado foi o nascimento da Sismologia!
De alguma forma, as
pessoas estão hoje muito mais protegidas. Mas as tragédias continuarão a
acontecer. Olhando para o feito de Pombal, a pergunta para os que estão vivos
em Santa Maria é: Que legado nós vamos deixar para a cidade de Santa Maria,
para o Rio Grande do Sul, para o Brasil, e quem sabe, para o Mundo...?

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