Sabe-se das dificuldades politicas e
institucionais as quais tem enfrentado o papa Bento XVI, das suas dificuldades
físicas, e das dificuldades da pós-modernidade para a Igreja Católica Romana.
Tendo seu direito à renuncia, o fez, e foi mais um a renunciar depois de 400
anos na história dos papas. Ora, se os Papas buscam ficar neste trono até a
morte... Se seu antecessor resistiu no papado, mesmo doente, até seus últimos
dias de vida... Por que renunciar, se estava lá para ter seu calvário também?
A pretensa alegação de idade avançada é
simplesmente caricata, pois Ratzinger assumiu o papado aos 78 anos, e não foi
escolhido pela obra do acaso pelo Colégio de Cardeais, já que na ocasião
praticou aquilo que sabe fazer bem, articulação política ostensiva, tanto que
foi “escolhido” logo no segundo escrutínio... Agora a Renuncia será sua marca.
Bem, dito isso, uma questão deve ser sempre
levada em consideração em relação ao poder político da Igreja Católica Romana:
Igreja Católica é uma coisa, Vaticano é outra... Afinal, o Vaticano é um
Estado...
O Josef Ratzinger
chegou ao “Trono de Pedro” com a promessa de que conduziria uma “limpeza” na
Igreja. Chegou a declarar certa vez em 2005,
em uma reflexão para a IX
estação da Via Sacra: "Quanta sujeira na Igreja...". Afinal
ele teria sido, quando Cardeal, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé
(uma espécie de Santa Inquisição), onde conduziu vários processos, inclusive o
interrogatório, em setembro de 1984, na condenação do teólogo Leonardo Boff a um
ano de “silêncio obsequioso”. Contudo, Bento XVI jamais conseguiu implementar
sua ideia "de tolerância zero" em relação à pedofilia, por exemplo...
Também deu indicações de que poderia rever algumas de suas posições, como a
questão do preservativo. Mas, por mais que tenha tentado, seus cardeais
mostraram-se irritados e se apressaram em negar-se ao debate. Esse não seria o
único caso de desobediência... Algumas de suas decisões de punir cardeais foram
meramente ignoradas ou levaram anos para serem cumpridas, em um desafio claro
ao poder Papal. E o resultado, porém, foi o oposto ao
“equilíbrio” de poder que havia durante os anos de João Paulo II...
Outros fatos também
pesaram muito para o tombo da “cátedra” de Bento, como a revelação de corrupção
no Banco do Vaticano (investigado desde setembro de 2012 pela justiça por
suposta de lavagem de grandes cifras em dinheiro), seguido pela descoberta de
que seu próprio mordomo, pessoa que o vestia e estava em sua intimidade, havia
roubado documentos que expunham a corrupção na Igreja. Algo que certamente foi
arquitetado por quem não age sozinho... Hoje, em prisão domiciliar no Vaticano,
seu mordomo é a testemunha maior de que o Papa não podia confiar mais nem em
quem servia seu chá da tarde, sem desconfiar do próprio chá... Enfim, concordar
ou não com os fatos cabe a cada um. A certeza que temos é que em cada lado do
rio Tibre, em matéria de Vaticano, nunca vai se saber toda a verdade...
Bento XVI teve seu “Judas”,
e ainda carrega sua “Cruz”, pois em termos de justiça ele se viu incapaz para
fazer a “limpeza” em seu “reino”... Lembro que em sua primeira Encíclica -Deus Caritas Est (2005) - citou Santo
Agostinho, que na sua obra Cidade de Deus afirma: "Afastada a justiça, o
que são os reinos senão grandes bandos de ladrões? E os bandos de ladrões o que
são, senão pequenos reinos?".

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