segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Muros diabólicos, vidas simbólicas...



            Afirma-se que a única construção feita pelo homem que é possível ser vista da Lua é um “muro”. Isso mesmo, um muro. Embora isso não se confirme, parece que a milenar Grande Muralha da China, com seus quase 7000 quilômetros, é o um grande símbolo do valor que a humanidade forjou para seus muros. Lembro-me das palavras do cientista e valoroso anglicano, Isaak Newton: "Construímos muitos muros e poucas pontes"...

De fato, os muros têm atravessado a história da humanidade com a responsabilidade de conter, guardar, separar, limitar, isolar, excluir... O muro é o objeto símbolo da divisão.

Quando falamos em símbolo temos que compreender qual é o seu papel. O símbolo, reza a etimologia da palavra grega símbolos (Sim – unir; Bolos – partes), é o que une, agrega. O seu antônimo é diábolos (Dia – separar; Bolos - partes), o que desagrega, divide, e separa.

Os sinais de união, virtudes, são símbolos, pois o símbolo é aquilo que une duas realidades diferentes, é aquilo que faz memória atual da existência e do Amor nas relações. Tudo é passível de questionamento, de análise, de reflexão, para se avaliar se representa ou não sinal da união. Se o símbolo representa a união de duas realidades, o contrário se dá com o diábolo. Tudo aquilo que desagrega, que domina, que separa, que divide, que exclui, que oprime e reprime é diabólico (qualquer que seja a lei, a instituição, o cargo, o indivíduo, ou se achem inseridos sociologicamente).

Portanto, podemos afirmar que o papel do Muro na sua essência é muito mais diabólico que simbólico...

Quem não lembra do Muro de Berlim?

Na manhã, bem cedo, do dia 13 de agosto de 1961, a população de Berlim, próxima à linha que separava a cidade em duas partes, foi despertada por barulhos estranhos, exagerados. Dava-se o erguimento do longo muro, traçado bizarro da guerra fria, que grosseiramente separou a zona soviética da então zona aliada ocidental, provocando separações, dissolução de famílias, exclusões, além de muitas mortes. Talvez o muro mais vergonhoso de nossos tempos. Mas em 09 de novembro de 1989 de Diabólico, o divisor passa a ser Simbólico, quando da sua “queda”. Ato emblemático inicial da reunificação das duas Alemanhas.

No entanto, recentemente temos assistido às polêmicas sobre novos e famosos muros. A triste história dos muros recentes que começa bem com o derrubar do Muro de Berlim, continua mal com o perpetuar da “diabologia murista”.

O uso do obstáculo físico, ou não, para separar dois universos distintos pode ter um viés ideológico, econômico, afetivo, militar e até mesmo envolver uma componente religiosa, como é o caso do muro construído por Israel, a nação dos judeus, para isolar os palestinos, seguidores do islamismo.

O “Muro de Israel” tem sido o laurel da falta de capacidade de diálogo, entendimento e da tolerância entre os seres humanos. Algo extremamente diabólico. De fato, não se aprendeu nada com o “diábolos berlinense”...

Agora, assistimos a polêmica sobre a construção de uma barreira na fronteira entre México e Estados Unidos, com o objetivo de conter o avanço imigratório ilegal nos EUA vindo da fronteira com o México. A construção da barreira foi aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente George W. Bush.

O muro de Israel, o muro em Ceuta e Melila e o muro do México. O estado Israel, a Europa e os Estados Unidos, nações símbolos de liberdade, ou unidas como símbolos de exclusão…?

Lembrei-me que anos atrás também testemunhamos um anúncio do governo do Rio de Janeiro que queria construir um muro para cercar as favelas da Rocinha, do Vidigal e do Parque da Cidade. Diábolos...!

Quantos muros representam as muralhas sociais e pessoais que provamos diariamente.

Os muros não físicos, não são menos diabólicos que os físicos. A "Apartheid" foi um exemplo disso. Não esquecendo que ainda existem outros "Apartheids" construídos por aí.

De fato, por vezes em nossas vidas pessoais e sociais temos sido mais diabólicos que simbólicos... Famílias em crises de relacionamento, divisões sumárias, filhos distantes dos pais, pais separados dos filhos, comunidades ou grupos vítimas de separações excludentes, e tantos outros fatos que nos tornam agentes da divisão.

Uma convicção tenho; de que Deus abomina a divisão insana. Nada mais belo e mais divino do que a união do ser humano, carnal ou não. Por isso Jesus é o maior sinal de partilha. Ele é Emanuel - Deus Conosco!

Fomos criados para estarmos juntos e não para o isolamento, a distância e a solidão. Fomos criados para sermos simbólicos!

Num tempo em que o individualismo e a competitividade nos impelem a sermos diabólicos, tenhamos a certeza de que a nossa vocação é a de sermos engenheiros do Amor e da Paz. Construtores de pontes. Facilitadores da união...

Que o grande arquiteto do universo nos proteja e preserve de toda divisão.