segunda-feira, 8 de julho de 2013

Ficando “Môco”...



Cada vez mais compartilhamos de pouco silêncio em nossas vidas. Somos acometidos de apenas pequenos intervalos que nos distanciam dos altos decibéis que, de alguma forma, abalam nosso interior, ressoando tenazmente em nosso sistema nervoso. A poluição sonora produz em nós uma tensão, que para alguns já não é mais perceptível, e progressivamente vai se tornando somática, cruel e comum. O resultado é que, em nossa sociedade, já se percebem pessoas em um estado “comum” de “stress débil”.

Será que precisamos de silêncio?

Bem, talvez tenhamos que, de alguma forma, criar o silêncio... Porém criá-lo pode ser dolorosamente difícil nos dias atuais, pois o silêncio não é apenas ausência de som, de ruído ou vozes... É algo “uterino”, formador e íntimo. A partir dele podemos compreender outras linguagens, outros sons, outras vidas. A concepção, o tempo, o mover da lua e dos planetas, o brilho das galáxias, o crescer e brotar das árvores e flores, tudo isso acontece ao som do silêncio. Assim, poderíamos afirmar que silêncio não é opção, e sim uma condição para tudo que vive se encontrar e se modificar.

É no silêncio depois da “rajada de vento”, do “terremoto”, do “fogo”, que escutamos o “leve sussurro transformador de Deus”.(I Rs 19:11-12). É pena que falamos muito mais do que ouvimos, e quando ouvimos estamos muitas vezes “fora de sintonia”. O fato, é que toda a humanidade fala demais... O teólogo dinamarquês, Kierkegaard, disse certa vez: “A palavra de Deus não pode ser ouvida no mundo barulhento de hoje. Criem o silêncio”. Todo o fiel fala demais nas suas rezas - orações repetitivas – e se esquece de que orar é olhar, ouvir e sentir a “brisa” também. È “criar o silêncio”.

É lamentável que a maioria das pessoas não vêem a Deus como um artesão do silêncio. Criar o silêncio é descansar no colo de Deus. No mundo modernamente falante a contemplação foi expurgada pela razão, e o barulho das crises e o murmurar dos queixumes furtaram o lugar da esperança. A verdade é que temos muitas “orelhas” que nos fazem adoecer e nos afastam da presença do silêncio. Temos ouvido através dessas orelhas que somos incapazes, que estamos fracassados, que vamos ficar abandonados, que vamos continuar doentes, que somos fracos, chatos, indesejáveis, tristes, que nada vai mudar em nós e para nós... Ou ouvimos que somos bons demais, que estamos acima de tudo, que somos intocáveis, imbatíveis e poderosos...  São muitos os barulhos que nos fazem perder o Consolo do Criador.

Ficar “môco” para alguns barulhos, pode ser o começo de tudo, pois a surdez correta nos coloca na presença silenciosa de Deus, a fim de compreendermos e reconhecermos nossa incapacidade de curar nossas próprias feridas e suprir todas as nossas necessidades.

Devemos cortar a nossa orelha! Sim! Cortar orelhas, por que não?  Sendo “môco”, cortando a orelha certa... Deixando também as orelhas dos outros em Paz. O termo mouco – popular “môco” – vem do latim Malchus. Sua origem vem do nome de Malcus, o servo do sumo sacerdote Caifás que teve sua orelha direita cortada por Simão Pedro durante a prisão de Jesus no Getsêmane. (Jô 18:10).

Com tanto barulho, é possível que boa parte das pessoas não saibam da importância e o poder da oração. Comecemos experimentando o Silêncio. Lá, poderemos nos encontrar e sermos encontrados...

Diante de tantos ruídos presentes, dentro e fora de nós, temos a oportunidade de, cortando a orelha certa, ouvir o som do silêncio e receber o conforto quente do Hálito de Deus – Ruach - . E se alguém cortou sua orelha indevidamente, calma! Jesus também curou a orelha de Malcus...