sexta-feira, 26 de julho de 2013

Martelo também mata...


Derivado das formas clássicas das palavras marculus e martulus, o Martelo é um instrumento usado para golpear objetos, ou conforme o uso ao qual se destina, tem inúmeros tamanhos, formatos e materiais de composição, tendo todas as características comuns de um formato conhecido pela maioria das pessoas.

            Os achados arqueológicos apresentam formas primitivas em diversos tipos de pedra. Muitas delas trazendo indícios de que era usado algum tipo de cabo-martelo nos tempos mais antigos. O martelo tem seu uso tão variado que vai do Direito à Medicina; da Carpintaria à Indústria; da Escultura à Borracharia, do Esporte às manifestações Culturais.

            Foi com o martelo que o juiz condenou, com o ele o doutor aprovou os reflexos do paciente, com o “maço” o pedreiro fixou-se a forma da pedra, com o “estampa” do ferreiro deu-se a curva no ferro. Com marteladas em seu cinzel, Michelangelo esculpiu com perfeição da estátua de “Moisés”, que ao final da obra, não acreditando no que arrancara da pedra bruta clamou o artista: Parla! Parla!

Entretanto, do coração e das mãos de quem segura o martelo, se pode construir e encantar, como em outros momentos destruir e horrorizar. Lembro-me que algum tempo atrás me choquei com a notícia de um homem de 43 anos fora acusado de matar a mulher e dois filhos, de oito e nove anos, a golpes de martelo na cabeça na Favela Santa Terezinha, Zona Sul de São Paulo. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, após cometer os crimes, o homem ainda destruiu à marteladas 20 veículos estacionados próximos à sua casa e até mesmo um carro de polícia chamado para atender a ocorrência. Atingido por um policial militar, o acusado morreu após ser atendido em um hospital de Diadema, no ABC Paulista.

            Lembrei-me também do assassino russo conhecido como "Maníaco do Parque Bitsevsky" que embebedava as vítimas e as matava com um golpe de martelo. É... Martelo também mata!

            Assassinos e loucos à parte, de fato não podemos olhar para o nosso semelhante como um objeto. Porém, tem pessoas que não conseguem ser saudáveis em suas relações, porque sempre tratam a todos como prego... Com as velhas reservas de sempre, ou com o eterno preconceito com o diferente, ou com a sagrada chatice diária e a prepotência corriqueira do perigoso martelo...

            O problema é o que ignoramos que temos uma “Caixa de Ferramentas”! E o que temos na nossa “Caixa de Ferramentas” talvez defina fundamentalmente como trataremos o outro. É fundamental para aquele que se julga um habilidoso “marteleiro” conseguir perceber que carrega em sua caixa outras ferramentas além do “Malho”. É sempre importante um alicate de bico, uma chave de fenda, uma chave philips, uma chave inglesa; pois essas também podem nos ensinar e ajudar muito sobre o queremos construir...

Ferramentas são usadas para aumentar o poder do corpo, mas podem nos levar ao encontro da necessidade do outro. Podemos estar matando o futuro e a esperança das pessoas porque só temos “Martelo” em nossa “Caixa de Ferramentas”... E sabe o que acontece quando só temos martelos?

            Corremos o risco de tratarmos tudo o que vemos a nossa frente como “Prego”...

            Cuidado! Martelo também mata...

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ser como as Criancinhas...


 

Muitos acreditam que quando o Jesus afirmou: “Quem não receber o Reino de Deus como um pequenino, não entrará nele” (Marcos 10:13-16), estava falando da “pureza” e “inocência” das crianças... Ora, por causa do Reino de Deus, os discípulos deixaram tudo para seguir Jesus, procuraram a presença de Deus em Cristo, desejando fazer parte do seu Reino restaurador. Mas quem disse que eles foram puros e inocentes? Nem os discípulos, nem ninguém jamais será totalmente puro ou profundamente inocente nessa existência.

Qual a interpretação justa para aquela afirmação de Jesus? Isso certamente corresponde à outra afirmação Sua: “Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu” (Mateus 18,3). Diante dessa declaração, podemos reconhecer que toda criança confia sem julgar, e não pode viver sem confiar nos que estão à sua volta, pois a sua confiança não é uma virtude, e sim uma realidade vital. É essa constatação que resume uma realidade de sobrevivência que é: A criança não sobreviverá sozinha, pois é totalmente dependente de quem a cuida.

Então, o que é ser como um pequenino? É ser totalmente DEPENDENTE para sobreviver! Afinal, o ser humano não sobrevive se for abandonado. Para tanto, entrar no Reino da vida vivida com Vida é ser como um pequenino e ter a capacidade de depender do Cuidado do Criador.

A super-babá Jo Frost (a “Supernanny” da TV), que garante colocar nos “eixos” os mais peraltas pequeninos, passou duas semanas com a família Young, no ano de 2005, ensinando todas as técnicas necessárias aos pais para a fazerem os filhos se comportarem bem e a indicando a melhor forma de reabilitá-los quando fossem desobedientes. Dois anos depois, pequeno de três anos ateou fogo na casa, usando o acendedor do fogão. Bombeiros afirmaram que ninguém cuidava das crianças naquele momento, já que, ao que tudo indica, o fogo foi causado pelo filho mais novo, que queimou as cortinas. Ele dependia de alguém...

Muitos de nós testemunhamos através da imprensa, alguns casos de abandono de recém-nascidos no nosso país. Um deles foi em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, onde a criança estava em uma lata de lixo, próxima a um Pronto-Socorro e Maternidade. Ela foi encontrada por um porteiro do hospital, que afirma ter visto uma mulher de calça jeans e blusa rosa colocar um embrulho no lixo. O recém-nascido foi retirado da lixeira ainda com sinais da placenta. Ele Dependia de alguém...

Também um recém-nascido ainda com o cordão umbilical foi encontrado numa área de mata atlântica no município de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, por dois homens que cortavam lenha no local. A criança, que apresentava dificuldade de respiração e tinha o corpo completamente coberto de picadas de insetos, quando foi levada a uma maternidade do município. Ele dependia de alguém...

E você, a quem tem abandonado? Ou, quem tem abandonado você?

As criancinhas continuam nos ensinando que além de não sermos os “puros” e os “inocentes”, continuamos sem acolher aqueles que dependem de nossa ajuda.

A verdade é que, infelizmente, não nos damos conta que somos nós os DEPENDENTES da história... Precisamos de um Deus que não nos abandona nunca... E ELE CUIDA! Acredite!

Seja como uma criança diante DELE deixe a arrogância de lado e entre no Reino da Vida!

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Ficando “Môco”...



Cada vez mais compartilhamos de pouco silêncio em nossas vidas. Somos acometidos de apenas pequenos intervalos que nos distanciam dos altos decibéis que, de alguma forma, abalam nosso interior, ressoando tenazmente em nosso sistema nervoso. A poluição sonora produz em nós uma tensão, que para alguns já não é mais perceptível, e progressivamente vai se tornando somática, cruel e comum. O resultado é que, em nossa sociedade, já se percebem pessoas em um estado “comum” de “stress débil”.

Será que precisamos de silêncio?

Bem, talvez tenhamos que, de alguma forma, criar o silêncio... Porém criá-lo pode ser dolorosamente difícil nos dias atuais, pois o silêncio não é apenas ausência de som, de ruído ou vozes... É algo “uterino”, formador e íntimo. A partir dele podemos compreender outras linguagens, outros sons, outras vidas. A concepção, o tempo, o mover da lua e dos planetas, o brilho das galáxias, o crescer e brotar das árvores e flores, tudo isso acontece ao som do silêncio. Assim, poderíamos afirmar que silêncio não é opção, e sim uma condição para tudo que vive se encontrar e se modificar.

É no silêncio depois da “rajada de vento”, do “terremoto”, do “fogo”, que escutamos o “leve sussurro transformador de Deus”.(I Rs 19:11-12). É pena que falamos muito mais do que ouvimos, e quando ouvimos estamos muitas vezes “fora de sintonia”. O fato, é que toda a humanidade fala demais... O teólogo dinamarquês, Kierkegaard, disse certa vez: “A palavra de Deus não pode ser ouvida no mundo barulhento de hoje. Criem o silêncio”. Todo o fiel fala demais nas suas rezas - orações repetitivas – e se esquece de que orar é olhar, ouvir e sentir a “brisa” também. È “criar o silêncio”.

É lamentável que a maioria das pessoas não vêem a Deus como um artesão do silêncio. Criar o silêncio é descansar no colo de Deus. No mundo modernamente falante a contemplação foi expurgada pela razão, e o barulho das crises e o murmurar dos queixumes furtaram o lugar da esperança. A verdade é que temos muitas “orelhas” que nos fazem adoecer e nos afastam da presença do silêncio. Temos ouvido através dessas orelhas que somos incapazes, que estamos fracassados, que vamos ficar abandonados, que vamos continuar doentes, que somos fracos, chatos, indesejáveis, tristes, que nada vai mudar em nós e para nós... Ou ouvimos que somos bons demais, que estamos acima de tudo, que somos intocáveis, imbatíveis e poderosos...  São muitos os barulhos que nos fazem perder o Consolo do Criador.

Ficar “môco” para alguns barulhos, pode ser o começo de tudo, pois a surdez correta nos coloca na presença silenciosa de Deus, a fim de compreendermos e reconhecermos nossa incapacidade de curar nossas próprias feridas e suprir todas as nossas necessidades.

Devemos cortar a nossa orelha! Sim! Cortar orelhas, por que não?  Sendo “môco”, cortando a orelha certa... Deixando também as orelhas dos outros em Paz. O termo mouco – popular “môco” – vem do latim Malchus. Sua origem vem do nome de Malcus, o servo do sumo sacerdote Caifás que teve sua orelha direita cortada por Simão Pedro durante a prisão de Jesus no Getsêmane. (Jô 18:10).

Com tanto barulho, é possível que boa parte das pessoas não saibam da importância e o poder da oração. Comecemos experimentando o Silêncio. Lá, poderemos nos encontrar e sermos encontrados...

Diante de tantos ruídos presentes, dentro e fora de nós, temos a oportunidade de, cortando a orelha certa, ouvir o som do silêncio e receber o conforto quente do Hálito de Deus – Ruach - . E se alguém cortou sua orelha indevidamente, calma! Jesus também curou a orelha de Malcus...