segunda-feira, 3 de junho de 2013

Sou apenas seu humilde canibal

 

Conta-se que a origem da Solenidade Católica do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao século XIII. A Igreja Católica Romana sentiu a necessidade de realçar a presença real do "Cristo todo" no Pão e Vinho consagrados. A Festa de Corpus Christi foi instituída pelo Papa Urbano IV com a bula Transiturus de hoc mundo de 11 de agosto de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após o domingo da trindade, depois de Pentecostes.
 

Lembro-me que na minha adolescência, um amigo de colégio que havia passado um ano nos EUA, fruto de um programa de intercâmbio cultural, me contou algo que ainda não havia refletido sobre quem somos na verdade... Ele sempre contava que ao conviver com alunos americanos do ensino fundamental, um deles, indelicadamente, perguntou: Ainda existe canibal no Brasil? Ao que ele respondeu: Não... O último eu comi...
 

À parte a inteligência da resposta, das minhas reflexões sobre a “antropofagia” recordo as experiêncas Eucarísticas da minha infância... Como tive parte da minha educação escolar vivida em um colégio católico de freiras belgas, fui catequizado pela doutrina da “Transubistânciação”. A Transubstanciação é a doutrina que ensina que na eucaristia existe a mudança da substância do Pão e do Vinho na substância do Corpo e Sangue de Jesus Cristo no momento litúrgico da consagração sacerdotal dos elementos. Para tanto, todo fiel católico romano, doutrinariamente falando, DEVE acreditar que aquele Pão torna-se verdadeiramente a Carne de Cristo, e que o vinho torna-se verdadeiramente o sangue de Cristo... Assim, todos os católicos romanos cometem uma “antropofagia” na eucaristia da missa...
 
 
Ainda me lembro daquelas irmãs dizendo na missa: “Não mastigue a óstia para não morder a Cristo... Deixe que ELE vai se dissolver na sua boca...”. Na verdade, nunca acreditei nisso, mas isso também me levou a ruminar sobre o que Cristo afirmava a respeito desse momento: “Esse é o meu Corpo e esse é o meu Sangue, tomai e comei...”.
 

Teologicamente falando ainda existem outras doutrinas a respeito da Presença Real de Cristo na Ceia. Os Luteranos abraçam a doutrina da “Consubstanciação”, ou seja, que o Pão e o Vinho se mantêm inalterados, assim, continuam sendo pão e vinho, mas “contêm” a presença de Cristo. Outras igrejas que receberam a influência do reformador Zuínglio acreditam que o Pão e o Vinho sâo símbolos, e servem apenas para lembrar da Presença Real de Jesus Cristo na Ceia. Já os Anglicanos defendem a Presença Real de Cristo na mesa eucaristica, não importando onde ele está; se nos elementos, se na comunidade, se de uma forma mística. Mas nada de “antropofagia” nessa hora...
 

Diante disso, fico com as palavras do Evangelista João que afirma em seu Evangelho: “Aquele que é a Palavra tornou-se Carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de Graça e de Verdade.” (João 1:14).
 

Concluo assim, que comemos as Palavras uns dos outros... Comemos as palavras, os verbos, as afirmações que os outros encarnam; tornam carne. Melhor dizendo, as palavras que se tornam carne são comidas por nós. Comemos os verbos que se fazem carne no nosso estômago. Muitas dessas palavras são duras, apimentadas, amargas, indigestas e podres... Nos fazem, muito mal.
 

Assim, fico com as palavras de Jesus Cristo, ou melhor, com sua Carne e com seu Sangue... Sou apenas seu humilde canibal...