segunda-feira, 10 de junho de 2013

Ainda não é Incansável...

 
Conta uma lenda indígena, que existiu um jovem de uma tribo Tupi que tocava maravilhosamente uma flauta.  Todos o apelidavam de “Catuboré” - que significa em tupi-guarani: “a flauta mágica”. Não era bonito, nem tinha formosura alguma, mas o som que tirava da sua flauta era esplendoroso.
 
Aconteceu que depois de uma tragédia lírica vivida por ele, transformou-se num pequeno pássaro da floresta, o conhecido Irapuru. Assim como o Catuboré, não tendo especial beleza, esse pássaro canta como ninguém, num som semelhante a uma flauta viva. Flauta essa, inconfundível a todos. Sem muita atenção, ele é um dos menores pássaros da floresta amazônica.
 
O Irapuru é, sem sombra de dúvidas, um pássaro peculiar. Sem qualquer cor que chame a atenção, quando comparado com o esplendor de outros pássaros, e pode ser considerado feio e pequeno, mas pelo seu canto é tido como uma ave extraordinária e singular.
 
Esse pássaro muda a vida da mata por alguns instantes, quando seu mágico canto passeia no ar. Canta apenas quinze dias no ano, e quando seu cantar ecoa na floresta, todos os outros pássaros se calam, completamente respeitosos e atentos. Naquele momento só se escuta ao canto do Irapuru...
 
Por vezes, sem beleza, não chamando a nossa atenção, e até mesmo sendo “feia”, é também a nossa auto-estima. Outros pássaros sempre são mais bonitos que o Irapuru... Essa é nossa cultura, que muitas vezes tem sido dominada pela “falta”. A cultura da falta de desejos humanos coletivos e sustentáveis. Somos, na verdade, enganados por uma espécie de “imagem distorcida” que nos mostra culturalmente quietos e mórbidos. Mas quando “cantamos”; ah quando cantamos... Nos libertamos! E todos param para nos ouvir, atentos e livres. Isso é respeito. Isso é auto-valorização. Isso é auto-estima!
 
Auto-estima é algo que anda ofuscada em nossos dias aonde vivemos ou atuamos. Como resgatar essa liberdade? Como resgatar esse poder de encantar?
 
Vamos nos libertar! Desejar! Nosso canto encanta e é muito lindo como o do Irapuru! Devemos partir para a concretização de uma Cidadania Cultural e de uma Saúde Cultural mais objetiva e de pé no chão. Essa diversidade que nos rodeia tem que ser reconhecida e fortalecida dentro de nós, para ser aplicada. O respeito a ela nos leva ao desenvolvimento perene, pois saberemos quem realmente somos. Aprendi que uma Aldeia resolvida é uma Aldeia de pessoas resolvidas...
 
Nosso desejo, dentre tantos “desejos humanos”, é que nossa auto-estima, nossa cultura - a flauta mágica do nosso povo - seja linda dentro de nós e não apenas cante alguns dias no ano, como o Irapuru, mas cante sempre. A Auto-valorização do indivíduo e de seu povo liberta e ensina a libertar o canto, que hoje é lindo, mas por vezes não é incansável... Por vezes não traduz a identidade mais autentica. Ainda copiamos muito outros cantos, sem necessidade...
 
Você já ouviu o canto do Irapuru? A flauta do Catuboré?
Já, é claro que já. Como disse o teólogo anglicano, John Stott : “Ouça o Espírito, ouça o mundo...”.
Então, não importa que pássaro você seja. Comece! Cante Incansavelmente!