sexta-feira, 3 de maio de 2013

“Carpe Relationem”


Tanto as frutas como as relações precisam ser colhidas. Ambas têm suas estações apropriadas e caminhos próprios para alcançar o fruto nas fruteiras. A grande verdade desta espiritualidade é que alcançamos e somos alcançados pelas pessoas, dependendo qual fruta nós somos. Lembro-me de duas frutas que estão presentes na minha vida e em meus sabores, são elas: o Coco e o Caju. São frutas maravilhosas e com suas peculiaridades, porém para quem conhece um coqueiro e um cajueiro percebe que nessas fruteiras somos desafiados também a olharmos para os caminhos que trilhamos até seus frutos.


Qual o caminho até o coco? Bem, o coqueiro é uma fruteira que chega a trinta metros de altura, com seu tronco cilíndrico, nervoroso e áspero, ao qual se encerra em folhas pinadas. É uma verdadeira arte chegar até sua fruta, tornando atlético e artístico o ofício de um “tirador de coco”. Esses “catadores” colhem as frutas, munidos de cordas que enlaçam em seus pés e ao troco da árvore, fazendo um frenético jogo de pernas e braços até alcançar os cachos da fruteira com seu facão. Para complicar a imagem dessa fruta, na origem do termo "coco" temos a declaração de medo, pois foi nominada pelos portugueses numa viagem de Vasco da Gama à Índia (1497-1498), a partir da associação da aparência do fruto, em que o endocarpo e os poros de germinação assemelham-se à face de um "Coco" – um monstro do imaginário ibérico com que se assusta as crianças; um Papão; um Ogro.


Como é difícil e árduo alcançar o coco... Mas, quando conseguimos tudo muda... O coco é uma das frutas mais ricas e nutritivas que conhecemos. Recordo-me do doce “baba-de-moça”, uma iguaria pernambucana, feito por minha mãe com a carne do coco verde... indescritível! Não esqueço apreciar uma água-de-coco bem gelada no calor da beira-mar recifense.


Existem relações com pessoas que são semelhantes ao caminho do coco, num primeiro momento são ásperas, rudes, duras, difíceis de alcançar. Entretanto, quando nos esforçamos e chegamos até seus frutos, conseguimos colher e conhecer a doçura, a beleza, e a riqueza de suas almas.


E o caminho até o caju? O cajueiro é uma fruteira exótica e belíssima, pois em seus frutos, geralmente carnosos, são encontrados vários e sedutores tons vermelho-amarelados, amarelos e rosados. Não existe muita dificuldade para chegar até o fruto. O tronco do cajueiro é tortuoso e relativamente baixo, fazendo com que até uma criança que estendendo o seu braço em direção aos galhos colha facilmente um caju. Porém o caju nos “engana”...


O caju trata-se de um pseudofruto, pois o que entendemos popularmente como "caju" se constitui de duas partes: a fruta propriamente dita, que é a castanha; e seu pedúnculo floral, pseudofruto geralmente confundido com o fruto. Suas folhas têm uma resina tóxica à qual só os macacos são imunes. Seu sabor apesar de doce é travoso, e a mordida generosa na carne da fruta enoda rapidamente os dentes de seu degustador. Ou seja, aquilo que vemos é o “pseudo”...


Existem pessoas que nos confundem como um caju. São de fácil acesso, de bela aparência, sedutoras, e num primeiro momento conquistam a simpatia de todos. No entanto, quando conhecemos seus frutos, descobrimos a amargura, o jeito travoso, as nodas que mancham, e as toxinas que oferecem...


Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é... Quem sabe o tão falado “Carpe Diem” não fosse “colha a relação” ao invés de “colha o dia”... Seria o “Carpe Relationem” ! Como começar então? Descobrindo o quanto podemos ser mais saborosos...