quinta-feira, 21 de março de 2013

Morrendo, com ou sem medo...

É fato. Estamos morrendo a cada dia, e não vivendo. O ser humano tem tantas perguntas a respeito do seu “fim” que evita declarar que está “morrendo”, e, em vez disso sempre afirma estar “vivendo”... Por exemplo: “Eu vivo no Rio Grande do Sul... Eu vivo pensando no futuro... Estou vivendo em uma nova querência... Estou vivendo para o trabalho...”. Na realidade poderíamos afirmar diferente: “Morro ali, no bairro Benfica... Morro naquela casa vermelha da esquina... Eu morro pensando no sucesso... Estou morrendo um novo tempo...”.
Claro! Existe uma verdadeira luta pela longevidade que se alinha a esse medo da morte. Recentemente, numa matéria jornalística inglesa se questionou o seguinte: Todos os anos, aumenta o número de pessoas idosas, tanto nos países desenvolvidos como nas nações em desenvolvimento, graças às descobertas da medicina moderna para atrasar as fronteiras da morte. Mas a longevidade é necessariamente uma coisa boa?
Em parte dos EUA, por exemplo, a forma física é levada ao extremo. Há lojas abarrotadas de comprimidos e fórmulas que visam prolongar a vida. Programas de treinamento funcional e tantas sessões de ioga em parques públicos, que autoridades americanas já pensam em impor um limite.
O cineasta Ed Saxon, que produziu o filme “Nação do Fast Food”, afirmou em 2006: ''Na Califórnia, você vê pessoas se exercitando às 5h15 e isso ou faz bem a elas ou faz parte de uma psicose neurótica séria, ligada à infelicidade pelo fato de estarem ficando mais velhas...''. Além da obsessão em torno da forma física, existem os conselhos incessantes em torno do que se deve comer para permanecer jovem. Pode ser desconcertante, mas o objetivo é claro. A “morte” tem de ser adiada o máximo possível.
Preferimos morrer felizes ou queremos ter uma longa vida mesmo que com dor e sem felicidade? Nos EUA se assume como fato que a longevidade é algo bom, afirma Susan Jacoby, autora do livro Never Say Die (Nunca Diga Morrer, em tradução literal). Susan diz que “se você for olhar com mais atenção para essas pessoas que te dizem que você pode ser uma pessoa saudável aos 120, existe um homem ou uma mulher vendendo alguma coisa, e estamos acreditando nesse mito de que, como estamos atualmente mais saudáveis do que nunca aos 67 anos, estaremos assim também aos 87 ou aos 97. Mas a verdade é que graças a alguns avanços duvidosos da medicina moderna, que mantém pessoas vivas, não importa com o quê, é que será preciso refletir mais sobre como cuidar dessas pessoas na alma também... ''.
Diante desse fato “vivido”, ou melhor, “morrido”, gostaria de deixar uma reflexão nas palavras de um amigo meu: “Dizem as Escrituras Sagradas: ‘Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer’. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A ‘reverência pela vida’ exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a ‘morienterapia’, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs... Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a ‘Pietà’ de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo...”.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Bingo! Deu a Tendência...




Desde o início do século III o termo "Papa" (do grego Pappas, uma palavra carinhosa para pai), era utilizado como uma expressão de veneração afetuosa, tanto para o Bispo de Roma, quanto para os outros bispos do Ocidente. Posteriormente passou a ser usado apenas pelo Bispo de Roma. Isso porque evidentemente representava a voz do Imperador Romano junto aos outros bispos, e devido ao peso dessa “voz” era chamado de Papai nos encontros conciliares.
Qual a importância da eleição de um Papa no âmbito teológico? Diria que de muito pouca importância para a Teologia no mundo ocidental. A Igreja Católica continuará a mesma, com seus “santos” e pecadores, e suas diversas correntes de pensamento. Afinal, bem previsível na sua expressão para o mundo teológico...
No entanto, qual a expectativa e o que realmente mudará? Por que o “mundo” fica tão interessado em acompanhar o evento da eleição papal? Ora, a imprensa está apresentando o espetaculoso, e as pessoas se atraem pelo sensacional; e por terem a chance de acompanhar a eleição de uma das últimas Monarquias do ocidente: O Papado. Nada muito diferente disso é igualmente ver a cobertura jornalística do casamento do príncipe Williams da Inglaterra sendo acompanhado pelo mundo inteiro, como se todos fossem de súditos britânicos... Contudo, o mais provável é que o próximo papa, muito mais que abertura e contemporaneidade, traga na mitra o conservadorismo e a manutenção das raízes dogmáticas católicas romanas para as “ameaças da Pós-modernidade”.
Quando me questionaram sobre quem seria cardeal “favorito” para o novo papa, eu respondi que não saberia o nome, mas saberia dizer que certamente ele continuaria na linha dura do conservadorismo de Paulo II e Bento XVI. O Casamento de Padres, o Sacerdócio Feminino, a aceitação dos Contraceptivos, o Casamento de divorciados, e outras questões contemporâneas não estarão na agenda do novo pontífice. Sua agenda seria muita mais “interna”, interessada em atuar contra a desmoralização da igreja, escândalos de pedofilia, escândalos financeiros do Estado do Vaticano, traições e desgaste da estrutura institucional...
A “torcida” por um cardeal favorito, e a expectativa por um papa conterrâneo, fica para o âmbito popular, para o povo, e regido pela mão da imprensa... Na Estrutura da Igreja Católica não existe pessoalidade e espaço para “favoritismo”, e sim para Tendência. Diferente do que muitos pensam, não existe a avaliação da biografia e currículo para saber quem é o cardeal mais “santo” para o momento. O que existe é a estratégia bem traçada da Igreja Católica para responder a seus problemas, e que seu futuro líder confirme um plano de ação para isso.
Sem surpresa nenhuma para mim, surge o nome eleito de Jorge Mario Bergoglio, chamado agora de Papa Francisco. Já poderia ser papa há mais tempo. Oito anos atrás foi o maior adversário de Joseph Ratzinger nas urnas, só abrindo mão da disputa no último escrutínio... Ou seja, um forte articulador político (a politica eclesiástica tem dois mil anos e é para poucos), um argentino (sacerdote do fértil terceiro mundo), filho de italianos (tem pedigree), e representante da linha ultra-conservadora da igreja católica (nada de abertura e surpresas...).
Isso se chama: Tendência. Bingo! Deu a Tendência...

quinta-feira, 7 de março de 2013

Antigas e Novas Mulheres





Certamente duas palavras bastante usadas em nossos diálogos do dia-a-dia são: Antigo e Velho. Fazendo uma investigação mais cuidadosa sobre o significado dessas duas palavras, podemos refletir sobre uma clara diferença entre o Velho e o Antigo...
Das coisas materiais às pessoas, o Velho e Antigo, parecem sinônimos, mas não são. A palavra “Velho” significa aquilo que se deteriorou ou se gastou pelo uso, desatualizado, obsoleto, caduco... Já o “Antigo” significa algo que existe há muito tempo, que vem de longa data, mas que se conserva. O velho perde valor com o tempo, ao passo que o antigo ganha valor... Coisas velhas são descartáveis. Coisas antigas têm valor.
O que faz diferente uma da outra? Atitude. A Atitude permite que as pessoas Antigas sejam Novas também. Aí é que está, de fato, toda a diferença e desafio: Ser Antigo, mas Novo!
No dia de Homenagem as mulheres, vem a minha mente as Mulheres Antigas e as Mulheres Velhas que conheci e conheço. Dentre elas destaco a minha Mãe, “Dona Deja”, que certamente é uma mulher Antiga, mas uma mulher radicalmente Nova. Após o mesmo número de anos, se torna antiga, enquanto outras se tornam velhas. Por que isso acontece? Certamente é o reflexo a espiritualidade das pessoas...
            Como diz o educador e filósofo Mário S. Cortella: “Nunca na história tivemos uma velocidade tão grande para as mudanças. É preciso ter cautela para não cair em armadilhas. (...) Devemos evitar o envelhecimento de nossa cabeça, de nossa vida e de nossa carreira. As pessoas velhas acreditam que não precisam aprender. O idoso (antigo) tem idade, mas continua em processo de aprendizado, tem valor. Já o velho precisa ser descartado”.
Encarando o desafio de ser Nova mesmo sendo Antiga, toda mulher poderá fazer um homem “gemer sem sentir dor”... Por isso, lembro as palavras do Poeta e Cantador Zé Ramalho que imortaliza essas mulheres que têm tal poder singular:
Numa luta de gregos e troianos/ Por Helena, a mulher de Menelau/ Conta a história de um cavalo de pau/ Terminava uma guerra de dez anos/ Menelau, o maior dos espartanos/ Venceu Páris, o grande sedutor/ Humilhando a família de Heitor/ Em defesa da honra caprichosa/ Mulher nova, bonita e carinhosa/ Faz o homem gemer sem sentir dor...
A mulher tem na face dois brilhantes/ Condutores fiéis do seu destino/ Quem não ama o sorriso feminino/ Desconhece a poesia de Cervantes/ A bravura dos grandes navegantes/ Enfrentando a procela em seu furor/ Se não fosse a mulher mimosa flor/ A história seria mentirosa/ Mulher nova, bonita e carinhosa/ Faz o homem gemer sem sentir dor...
Virgulino Ferreira, o Lampião/ Bandoleiro das selvas nordestinas/ Sem temer a perigo nem ruínas/ Foi o rei do cangaço no sertão/ Mas um dia sentiu no coração/ O feitiço atrativo do amor/ A mulata da terra do condor/ Dominava uma fera perigosa/ Mulher nova, bonita e carinhosa/ Faz o homem gemer sem sentir dor...”
Parabéns as Mulheres Antigas e Novas também!

           

sexta-feira, 1 de março de 2013

Na agulha que costura...




Segundo Rudolf Steiner, em seu tratado de antroposofia “A Ciência Oculta”, foi no ano de 869 no Concílio de Constantinopla que a Igreja Católica Romana estabeleceu o dogma de que o ser humano é formado apenas “de Corpo e da Alma”, tendo-se eliminado o Espírito de sua constituição. Estabeleceu-se, ainda, que “a alma tinha algumas características espirituais”.
Para Steiner, esse foi um dos motivos da cisão da Igreja Ortodoxa (acontecido em 1050), que continuou a encarar o ser humano como “tri-membrado”. Historicamente, até hoje, isso leva muitas pessoas a confundirem Alma com Espírito, ou achar que tudo é a mesma coisa...
Por esse motivo, estando ausente do vocabulário oficial da Igreja Católica Romana que, durante séculos, ditou no ocidente os costumes e conceitos ligados à espiritualidade, passando a palavra Espírito a ter múltiplas conotações. Hoje causa ainda confusão na cabeça de muitos que falam de “alma penada”, “alma doente”, “coisas da alma”...
Mas, a partir de Descartes, houve uma fragmentação da realidade em corpo e alma, o que incentivou o desenvolvimento de linhas mais materialistas. Esse modelo “Cartesiano” começou a ser questionado no século XX, com estudos sugerindo a retomada da visão integral do homem e a valorização daquilo que os cartesianos haviam abandonado e a igreja negligenciado: o ESPÍRITO.
Chegou-se a essa tecnologia moderna, avançada, e que ninguém pode descartar, mas hoje é fundamental e inquestionável a retomada a unidade outrora perdida. Não se trata de voltar atrás, mas de dar um novo passo em direção ao ser humano.
Entende-se que assim, sendo o ser humano um co-criador de instituições sociais (grupos, empresas, comunidades, associações, sociedades, países e etc.), esse faz dessas a imagem e semelhança de sua estrutura mais sutil e espiritual. Muitas dimensões do ser foram suprimidas em prol do desenvolvimento material que, possivelmente gerou uma sociedade excludente. Lembremos que hoje dois terços da humanidade não podem consumir a tecnologia e a ciência que é produzida...
Assim, surge então uma reflexão interessante. De acordo com alguns educadores, dentro da educação existe uma pergunta que parece óbvia, mas não é: “O que é educar?”. Educar depende da concepção que ser humano tem dele mesmo; se ela é estreita, sua maneira de educar será igualmente estreita... Se profunda, será igualmente profunda.
A proposta “Holística”, “Quântica”, ou “Complexa” ainda choca a tradição universitária, que está acostumada ao saber positivo, entretanto é preciso lembrar que a psicologia positiva não depõe contra isso. Embora a metodologia científica seja necessária, precisamos reconhecer também a complexidade da condição humana, e assim trilhar o caminho pedagógico para desenvolvimento da espiritualidade deste que se encontra em crise: O Ser Humano.
Afinal, se o Espirito não é Alma, nem Alma é Espírito, a Espiritualidade está muito além do emocional e do religioso. Ela está na agulha que costura tudo e todos... Por isso, o Espírito não morre, a Alma sim, mesmo em vida...