quinta-feira, 7 de junho de 2012

Passando o pão no rosto...




Certa vez, presenciei uma discussão de dois queridos amigos sobre o entendimento claro de algumas pessoas, por vezes “folclórico”, sobre expressões bíblicas que estão no domínio público. Na ocasião, a celeuma se dava porque um deles afirmava que ainda existem aqueles, que ao ouvir a popularizada citação bíblica “comerás o pão, com o suor de teu rosto” (Gn 3.19), acreditam que ela se refere à ação de passar o pão no rosto suado e comê-lo... Confesso que dei muitas risadas naquele dia...
Certamente não sou o primeiro, nem o último a mencionar que a origem da palavra Trabalho vem do latim Tripalium. O Tripalium era um instrumento de tortura romano formado por três (tri) paus (palus) unidos e cravados no chão em forma de uma pirâmide, com o objetivo de trazer o suplício aos torturados. No mundo ocidental esta mancha negativa ao termo não se abate com o “Laboro” usado na idade média e renascimento. Afinal, a concepção negativa desta ação esteve durante séculos ligada ao sofrimento do trabalho escravo e à dureza da atividade manual do servo. A lógica histórica é não trabalhar, principalmente quando se tem alguém para trabalhar por você. Não sei se mudou muito, porém, temos que admitir que essa idéia de que trabalho é sofrimento perdura até hoje em algumas culturas. Muitos de nós já ouvimos frases como: “Ah... Um dia, quando eu parar de trabalhar, vou descansar e fazer o que gosto...” Assim também, tudo aquilo que é cansativo, difícil, custoso e tortuoso é “trabalhoso”.
É claro que o citado texto bíblico se reporta à provisão humana através do suor do trabalho, contudo, podemos perguntar: Hoje, trabalha-se mais que no passado?
Bem, recentemente um paladino da gestão estratégica em uma pertinente conversa sobre tempo e trabalho trouxe a minha lembrança que, durante a explosão da industrialização, as jornadas de trabalho eram ainda maiores que as de hoje, entretanto, o ser humano parece mais ocupado, infeliz, estressado e sem tempo. Por que?
            Na sua vida profissional, ou temos prazer e foco naquilo desejamos alcançar, ou simplesmente trabalhamos bastante... Afinal, somos avaliados pelo que produzimos ou por quanto tempo trabalhamos? Quanto o excesso de carga reduz a eficácia, eficiência e efetividade do que fazemos? Quantas vezes paramos para afiar o machado?
Uma agência japonesa reguladora de trabalho concluiu que um engenheiro da montadora Toyota morreu por trabalhar demais, marcando a mais recente decisão contra o excesso de trabalho no Japão. O trabalhador tinha 45 anos e sofria uma grande pressão como chefe de engenharia no desenvolvimento de uma versão híbrida do carro Camry, segundo afirmou advogado que representava a mulher do falecido que teve sua identidade mantida em segredo. Nos dois meses anteriores à sua morte, o engenheiro teve uma média de mais de 80 horas extras por mês. Ele constantemente trabalhava à noite e finais de semana, quando sofreu uma isquemia cardíaca em janeiro de 2006. Em comunicado, a Toyota afirmou que está trabalhando para melhorar o monitoramento da saúde de seus funcionários.
Um estudo analisou 2.214 funcionários públicos britânicos de meia idade e descobriu que aqueles que trabalhavam mais de 55 horas por semana tinham menos habilidades mentais do que os que faziam o horário normal. A pesquisa, divulgada na publicação científica American Journal of Epidemiology, descobriu que os que trabalhavam demais tinham problemas com a memória de curto prazo e lembrança de palavras. Os empregados que trabalhavam em excesso tinham menos horas de sono, relatavam mais sintomas de depressão e consumiam mais bebidas alcoólicas do que os que trabalhavam apenas no horário normal.
Parece que o Tripalium continua torturando e matando a muitos... E ainda mais, deixando as pessoas “dementes”...
Certamente temos que separar aquilo que chamamos de estresse daquilo que podemos considerar como cansaço. Quando fazemos qualquer trabalho com prazer não necessariamente precisamos nos estressar. Trabalho tem haver com qualidade de vida e com resultado.
Olhe para sua vida hoje e pense. Pense se você, mesmo trabalhando muito, tem desfrutado de qualidade de vida... Pense se trabalho para você é tortura; é um sofrimento... Pense se você esta ficando “demente”... Pense se você está cansado ou estressado...
Só não me venha dizer que está passando um pedaço de pão no rosto suado e comendo, acreditando que um dia, “se Deus quiser”, vai fazer o que gosta...