terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Recado para os olhos


É ensinado nas bancas dos seminários teológicos que sacramento é “um sinal visível de uma graça invisível”. Palavras sábias de Agostinho de Hipona no século IV, um dos grandes do período chamado de patrística. Contudo, o sacramento é uma imagem carregada de emoções. Como diria Rubem Alves: “Os sacramentos são símbolos que têm o poder de invocar ausências”.


Bem da verdade todo símbolo é forjado a partir da ausência. Presente a ausência o ser humano logo eleva um símbolo que traduz aquela ausência em presença desejosa... Lembre-se de um símbolo e perceba que por trás dele há algo que estava ausente ou está, para determinado indivíduo ou grupo. Mas todo símbolo tem que ser bem degustado, senão se torna sem “graça”...

Poderíamos dizer de uma maneira simples que sem a poesia o gosto do sacramento é insosso. As poesias são imagens carregadas de emoções...

É possível defender a idéia de que, quem não tem poesia é “pobre”. Pobre nas emoções, possivelmente pobre no amor. Na liturgia, por exemplo, se uma cerimônia não for celebrada com poesia e arte, essa corre um sério risco de se tornar “o rito pelo rito”. As orações também muitas vezes se tornam imagens ocas, porque são resultados de vãs repetições. (Mt 6:7-8). Pois, é no calor do coração que as orações se tornam poesias declamadas a Deus...

A pobreza das emoções torna o ser humano cego na alma. A cegueira espiritual pode ser resultado de uma vida pobre de emoções. Tenhamos a certeza de que existem coisas que só são vistas com os olhos da alma, com os olhos da Fé... Blake disse certa vez: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Por isso as crianças são sábias, elas vêem com a alma e se divertem com isso...

Mas como ver então?

A poesia é um caminho. Devemos educar nossos olhos para que vejam com olhos poéticos. Devemos educar de forma que as pessoas vejam com olhos de poeta... Os poetas vêem e ensinam a ver. A poeta Adélia Prado disse certa vez: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra...”.

Pouco tempo depois da morte de Jesus, os discípulos no caminho de Emaús caminharam com o ressuscitado durante horas, mas só o reconheceram quando seus olhos viram com o coração. (Lc 24:13-35).

Às vezes nosso encontro com o Cristo ressuscitado só depende de nosso olhar. Por vezes o nosso encontro com a vida, com as pessoas amadas, com a esperança, com a vitória, com a Paz só depende de nossos olhos.

Como diz Adélia, sem olhos poéticos uma pedra continua pedra, uma cadeira continua uma cadeira, um céu estrelado permanece escuro, um rito permanece rito, um amor continua mal amado, uma vida continua fria, uma árvore continua seca, um sacramento continua sem gosto, uma cidade continua uma simples cidade.

Fica aqui o meu recado para vossos olhos...