domingo, 30 de outubro de 2011

Lembranças da Reforma Protestante



O cristianismo nas ilhas britânicas é muito mais antigo do que se pensa. Suas origens remontam ao século II, e data dos registros dos primeiros cristãos na Inglaterra; romanos que ocupavam o território e deixaram a Grã- Bretanha no século V. Mas foi a a chamada Igreja Celta que se desenvolveu ao redor do Mar da Irlanda nos séculos V e VI entre célticos da Bretanha, tais como bárbaros irlandeses, escoceses, galeses, córnicos e os habitantes da Ilha de Man, que estabeleceu uma ética institucional.

Diferente do continente europeu na forma de governo eclesial, ao qual se desenvolvia com seus bispos e suas dioceses, o cristianismo celta dispunha-se em mosteiros e seus abades, considerando-se uma entidade unificada e identificável separada da grande Cristandade Latina.

Em 603, o monge beneditino Agostinho (que não é o de Hipona) chamou representantes da Igreja Celta numa tentativa de convencê-los a se submeter às práticas e disciplinas católicas romanas, mas eles se recusaram. O principal ponto de discórdia era a data da Páscoa, pois a Igreja Celta seguia uma tradição bem mais antiga do que a Igreja de Roma (tradição joanina). Havia ainda questões menores, como a forma da tonsura monástica - a área raspada da cabeça do monge - pois como muitos monges tinham sido druidas (sacerdotes do xamanismo celta), mantinham as suas tranças por trás das orelhas e só raspavam a parte superior e frontal da cabeça, diferentemente dos monges católicos do continente.

A questão das diferenças entre a Igreja Britânica e a Igreja Romana continuou sendo motivo de controvérsias, dando espaço para a seu constante histórico de interdependência diante de Roma.

Neste aniversário de 494 anos da Reforma Protestante, celebrado no dia 31 de outubro, lembrei de uma freqüente afirmação histórico-oficial que minha professora de história fazia nos meus tempos de banca escolar. A afirmação de que a Igreja Anglicana fora fundada pelo rei Henrique VIII da Inglaterra, pois queria separar-se de Catarina de Aragão e casar com Ana Bolena em busca de um herdeiro varão para a casa dos Tudor.

De fato uma das perguntas que sempre se faz a um anglicano é: “Qual a origem da Igreja Anglicana?”. A resposta encontrada nos livros didáticos de história é oficial e não real. Henrique VIII não poderia fundar algo que já existia desde o cristianismo celta, pois o fato real é que o controverso rei não fundou uma nova igreja.

Durante a Reforma Protestante alavancada pelo monge alemão Martinho Lutero, a igreja anglicana protesta também e abraça os cinco pilares da Reforma: Somente as Escrituras - ou seja, a Bíblia, como única regra de fé e prática; Somente a Graça – pela graça de Deus não por qualquer mérito humano, é que podemos ser salvos; Somente a Fé - É mediante a fé, que é dom de Deus, e somente por ela, é que somos justificados pelo sacrifício de Cristo na Cruz; Somente Cristo – Jesus Cristo como mediador entre Deus e os homens; e Somente a Deus a Glória - Devemos exaltar e glorificar aquele que fez todas as coisas.

Simples assim. Então, Soli Deo Gloria!!



domingo, 23 de outubro de 2011

Qual o rótulo da sua garrafa?



O que é a religião? A religião é fundadora da noção de ambiente, de tempo e de valores sagrados, a partir dos quais se dá a experiência de encontro, de junção e de releitura da realidade que nos circula através dos séculos, marcando a história da humanidade desde seus primórdios. É uma experiência humana que se manifesta culturalmente e se moderniza, ou regride, à medida da própria experiência humana.


Quando falo de religião, não penso inteiramente na religiosidade... Quero refletir sobre a espiritualidade humana. Um pensador de nossos dias diz que “a religião é muito mais do que uma questão de escolha pessoal. É assim porque sempre temos diante de nós a pergunta pelo sentido da vida, pelo fim último de nossa existência. Se o homem não encontra em Deus o fundamento último de sua existência, tende a adotar outros absolutos e a fazê-lo conforme a sua imagem e semelhança. Do contrário, mergulha no desespero e no vazio existencial”.

Você já se perguntou quem é o absoluto na sua vida?

Bem, é nas relações da experiência humana que se verifica que a liberdade e transcendência são relativas, limitadas e condicionadas... De fato, é quando nos damos conta que somos marcados pela liberdade, mas também pelo determinismo; pela transcendência, mas também pela contingência; pela eternidade, mas também pela finitude, é que construímos nossas relações. É na ambiguidade que surgem os necessários relacionamentos.

Diante da força da indústria cultural, a religião insurge hoje como um negócio e como uma mercadoria, destinada a legitimar uma ideologia que orienta a relação simbólica com o sagrado e a busca de soluções imediatas para o sofrimento humano. O problema é o imediatismo da época em que vivemos. Época em que se rejeita a idéia da tradição religiosa que enfatizava a limitação humana, para dar lugar à possibilidade de uma vida de sucesso e de prosperidade... Uma nova religiosidade. A religião da pós-modernidade “resolve” o problema com receitas simples e proclama que é possível conquistar uma vida de sucesso e prosperidade.

O psicólogo americano A. Maslow quando elaborou sua “pirâmide de hierarquia das necessidades” apontou que depois de subjugarmos a necessidade de “Sobrevivência”, buscamos conquistar a “Segurança”. Assim, os homens e mulheres pós-modernos precisam de algo que os ajude a superar o sentimento de incerteza diante de um mundo fragmentado, que lhes rouba a segurança e põe em risco a sua identidade. Surge então o elemento religioso... O que alimenta o encantamento humano.

Vivos, precisamos transformar a incerteza em auto segurança, reelaborar o que nos encante, o que nos seduza, e que nos convença de que se está diante da experiência do sagrado. O problema é quando tudo isso é posto numa garrafa que tem como rótulo: Instituição!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

É claro que Igrejas morrem...





Lembrei de um artigo do pastor Ricardo Gondin o qual relata seu testemunho sobre uma visita feita a algumas igrejas na Inglaterra que morreram lentamente. Gondin descreve sua perplexidade neste artigo quando cita que ao visitar um antigo templo fundado durante o avivamento wesleyano – o qual fora um espaço de muita vitalidade espiritual - percebe que as placas de granito e mármore, ainda fixadas nas paredes, mostravam que naquele altar (que agora era o balcão de um bar) haviam pregado pastores e missionários ilustres...
Menciona Gondin em seu texto: “Devido aos altos custos de manutenção, só restava ao remanescente negociar o imóvel. Atualmente, os maiores compradores são os muçulmanos, donos de lojas de antigüidades e, infelizmente, de bares e boates”. Em sua imaginação ao visitar aquele templo, recorda que um dia fora um lugar cheio de pessoas comuns, porém lotado de pessoas ansiosas por participarem do mover de Deus que varria toda a Inglaterra...
Bem, se na Inglaterra de outrora, com toda a firmeza doutrinária, ética e disciplina anglo-saxônica aquelas igrejas morreram, o mesmo pode acontecer no Brasil? A resposta é Sim. Se por um lado as históricas envelhecem sem renovação, as mais “modernas” são carentes de identidade e fartas de rotatividade de seus membros, os quais chamo de pan-denominacionais... As razões que implodiram inúmeras congregações européias, obviamente são diferentes, porém Gondin aponta para pelo menos três perigos em nossa realidade brasileira:
A trivialização do sagrado - Faltam “temor e espanto” diante de Deus. O único temor é o do pastor ou ministro: de que a oferta não cubra as despesas e os seus planos de expansão. A cultura religiosa, em especial, está fomentando uma atitude muito displicente quanto ao sagrado. O deus que está a serviço de seu povo para lhes cumprir todos os desejos certamente não é o Deus da exortação do livro de Hebreus 12.28-29.
O esvaziamento dos conteúdos - Uma das marcas mais patéticas do tempo em que vivemos é a repetição maçante de jargões nos púlpitos. Frases de efeito são copiadas e multiplicadas nos sermões. Algumas, vazias de conteúdo, criam êxtases sem nenhum desdobramento. Surge um enraizamento de princípios, valores e ética que na verdade ficam a desejar em seus membros e envergonham a mensagem do Evengelho.
A mistura de meios e fins - Não se sabe mais o que é meio e o que é fim. Não se sabe mais se a igreja existe para levantar dinheiro ou se o dinheiro existe para dar continuidade à igreja. Canta-se para louvar a Deus ou para entretenimento do povo? Publicam-se livros como negócio ou para divulgar uma idéia? Os programas de televisão visam popularizar determinado ministério ou a proclamação da mensagem? As respostas a essas perguntas não são facilmente encontradas.
Reconheço que igrejas morrem e outras vão morrer... Seria bom que todos reconhececem isso... Já seria o início da ressurreição de muitas. Porém, se nada for feito por quem planeja estrategicamente os caminhos e valores de suas igrejas, esse estará condenando as mesmas a se tornarem bares, pubs, bibliotecas, estúdios de gravação, como já acontece na Europa... Melancólico sonho. Porém, esse pesadelo pode se tornar realidade...
Acorda para Jesus!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Morrendo os “Boomers”, tudo acaba...



Sou um integrante da chamada “Geração X” que geralmente inclui as pessoas nascidas a partir do início dos anos 1960 até o final dos anos 1970, por vezes podendo considerar o início dos anos 1980, sem, contudo ultrapassar o ano de 1982.


Essa minha geração segundo pesquisadores da sociologia apresenta uma busca a individualidade sem a perda da convivência em grupo. Tem facilidade de conviver com as diferenças, pois já são de uma geração de “pais separados”... Têm maturidade na escolha de produtos de qualidade e inovadores. Dão um maior valor a indivíduos do sexo oposto e buscam racionalmente seus direitos. Gostam de liderar e de trabalhar em grupo. Respeitam hierarquias, mas não aceitam o conformismo com o antigo e ultrapassado.

A grande parte das igrejas históricas de hoje parecem, diferentemente do campo organizacional, ignoram o perfis das gerações. Estar adequado as linguagem correta para com as gerações é mister na vida de qualquer projeto futuro e na missão de uma congregação ou igreja.

Lembro que minha fé foi forjada em uma comunidade que já valorizava a Geração X. Trabalhos em grupos e inovação litúrgica eram as marcas para alcançar uma geração que via nascer a tecnologia da comunicação e informação na informática. Lá, os músicos atuavam com vários instrumentos, as liturgias eram projetadas em um telão deixando as mãos livres dos livretos, e as celebrações eram menos conservadoras, mais marcantes e criativas.

Mesmo diante da forte presença da “Geração Y” (nascida entre os anos 1980 e 2000) ainda vemos congregações abraçadas em um modelo de trabalho que só atende aos “Baby Boomers” do pós-grande guerra. A Geração “Baby Boomer” (nascidos entre 1943 e 1960) é de apaixonados pelo idealismo. Conservadores, não gostam de inovações e ao planejarem o futuro, buscam seguir o passo a passo para alcançá-lo. São carreiristas... Carregam suas verdades como imutáveis e preferem qualidade a quantidade. Suas igrejas estão vazias...

Agora a dificuldade aumentou! É a vez de atentar para a Geração Y. Essa geração é daqueles que são os filhos da Geração X e netos dos Baby Boomers. A Geração Y nasceu em um mundo que estava se transformando em uma grande rede global. A Internet, emails, redes de relacionamento, recursos digitais, fizeram com que a Geração Y conquistasse milhares de amigos ao redor do mundo, sem ao menos terem saído da frente de seus computadores.

Os Y’s estão sempre conectados. São extremamente impacientes com reuniões e encontros de longa duração, pois procuram informação fácil e imediata. Preferem computadores a livros, emails a cartas, compartilham tudo o que é seu: dados, fotos, hábitos. Tem atenção seletiva e estão sempre em busca de novas tecnologias. No entanto, é uma geração eternamente atrelada e preocupada com a ecologia e o respeito ao meio ambiente. Acompanhar as novas ferramentas de comunicação e informação favorece a igreja e comunidade que não quer fechar as portas para a geração Y. Outro fato é que a “Geração Alpha” (nascendo desta próxima década) já nascerá com o “mouse” na mão.

A morte de comunidades religiosas cristãs nem sempre tem como causa a secularização do homem ocidental pós-moderno. A verdade é que muitas igrejas e comunidades ainda estão fazendo igrejas para agradar os Baby Boomers,..

O futuro deste modelo é fácil de adivinhar... Morrendo os “Boomers”, tudo acaba...

sábado, 1 de outubro de 2011

Saúde na “Receita de Bolo”




Não existe apenas uma “receita de bolo” para as diversas situações de crise nos nossos relacionamentos pessoais. Entretanto, sabemos que uma maneira de estabelecer uma ética pessoal de se relacionar de forma saudavel é possivel, se adotarmos algumas atitudes e torná-las um hábito em nossas vidas.
Poderia apontar alguns ingredientes da “receita” para levarmos ao forno o “bolo” que poderia ser mais saboroso... Para tanto, penso que três desses ingredientes seriam indispensáveis para o sucesso do sabor final. A partir destes três elementos podemos nos transformar em ótimos confeiterios, cujos bolos adoçariam muitas relações...
O primeiro desses ingredientes diria respeito à recuperação e restauração da nossa dignidade como seres humanos. Precisamos compreender que somos limitados como humanos e que ainda assim temos valor. O problema é que temos ideias equivocadas sobre o nosso valor enquanto seres humanos e alvos do amor de nosso Criador. Esse equívoco pode atingir diretamente nossa auto-estima até destruí-la... Podemos ir de um lado ao outro atribuindo a nós mesmos um valor superior ou muito inferior ao verdadeiro valor que temos; esse que só conhecemos, conhecendo o Deus que nos conhece.
Como disse um pensador de nossos dias: “A maior expressão de nossa condição humana é a capacidade que temos de dar e receber relacionamentos. Isso está bem no âmago de nossa personalidade. O problema é que estamos perdidos, desorientados e cegos”.
O segundo ingrediente é descobrir que somos aceitos por alguém. Apesar de às vezes estarmos perdidos, quem nos aceita vem ao nosso encontro. Quem nos aceita, nos ama como nós somos, todavia, se recusa a nos deixar do mesmo jeito. Nos quer melhor, mais maduros. È disso que Jesus fala quando aponta para o amor que devemos ter por nós mesmo e pelo outro semelhantemente.
E o terceiro ingrediente é ser capaz de celebrar a alegria de viver apesar dos problemas. Existem duas razões para que haja uma grande festa. Estar junto é a primeira delas. Ninguém celebra nada sozinho. A celebração só acontece no encontro; na alegria da chegada. A segunda é a entrega. Nossa atitude se assemelha muito mais a um menino teimoso que não quer aceitar o conselho de seus pais para que faça a escolha pelo que é melhor para a sua vida. Entregar-se é render-se ao plano que Deus tem para cada um e se alegrar com ele. Quando alguém se rende e se quebranta diante dEle, há grande manifestação de alegria. Isso posso garantir!
Quer garantir saúde na sua “receita de bolo”? Então, não esqueça de acrescentar na receita: Aceite-se, seja aceito e celebre a vida!