sábado, 24 de setembro de 2011

Razão e Fé de mãos dadas?



Uma experiência com Deus sem logos, ou seja, sem a razão, é apegada ao contemplativo e ao ilusório, por vezes voltada para as soluções imediatas. Se ponderamos que a Teologia é resultado de uma tentativa de compreender da revelação divina nas circunstâncias palpáveis em que ela foi recebida, a própria noção da verbalização da palavra de Deus deve ser entendida não como palavra humana, mas como a fala divina é recebida, entendida e expressa na fala humana, com as circunstâncias socioculturais e históricas que permeiam a linguagem.

Então surge uma tradicional questão: Razão é fé são verdadeiramente opostos?

Bem, até mesmo durante a Escolástica, que representava o pensar filosófico da época medieval, já se promovera a junção entre o intelecto humano e Deus. Essa junção entre conhecimento e fé não ocorre de maneira alheia, ao contrário, ela traz, em seu bojo, questões existenciais que irão repercutir diretamente na formação dos sujeitos e da sociedade. Quando Tomás de Aquino afirmou que o saber racional e a aceitação da palavra Sagrada competem ao mesmo ser em sua totalidade, ele acabou por atribuir aos homens maior autonomia em relação à influência da Igreja naquele período histórico.

Naquela conjuntura, dava-se início a uma discussão sobre a razão humana, até que ponto essa é conduzida por Deus e em que medida o uso dela é uma atividade dos homens. Passados os séculos, memo o Iluminismo tendo jogado fora a água do banho e o bebê junto, é um engano pensar que o enfraquecimento da razão pode resultar em um fortalecimento da fé, ou vice-versa. O enfraquecimento da razão resulta, isso sim, numa fé supersticiosa que se alimenta do mágico e do ilusório. O enfraquecimento da fé, por sua vez, resulta na fragmentação e na perda de sentido, pelo fato de a razão não ser capaz de abarcar a totalidade e o sentido último das coisas.

Magias a parte, mesmo na reflexão filosófica dos pensadores que contribuíram para ampliar a distância entre fé e razão, com seus pensamentos aprofundados e desenvolvidos com mente e coração honesto, poder-se-ia descobrir um caminho saudável. Contudo, isso não pode nos fazer perder a capacidade de aceitar a relação entre fé e razão com um cuidadoso esforço de discernimento, porque tanto a razão como a fé ficaram reciprocamente mais pobres e débeis isoladamente...

A razão, privada da fé, percorreu trilhas marginais sempre com o risco de perder de vista a sua meta final. A fé, privada da razão, pôs os pés no caminho de super evidenciar o sentimento e a experiência, correndo o risco de deixar de ser uma proposta universal.

Em resumo, sem essa aceitação, a Fé cairá no grave perigo de ser reduzida a um mito ou superstição, e da mesma maneira, uma Razão que não tenha pela frente uma fé madura não é estimulada a fixar o olhar sobre a novidade do sentido da vida.