quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Niemeyer e Espiritualidade



Muitos acreditam que aqueles que se afirmam como “ateus”, não possuem espiritualidade. Outros acreditam ainda que espiritualidade é coisa dos religiosos... Foi quando conheci a Catedral Metropolitana de Brasília que descobri que muitos desses ateus declarados têm uma espiritualidade mais madura do que outros tantos religiosos...

Além de uma estética singular proposta em seu momento histórico, aquela obra arquitetônica traduz em seu partido plástico a expressão de adoração ao Deus Criador tão bem representada no “arvoramento ao Céu” de sua estrutura, simbolizando a relação de adoração do fiel cristão diante do seu Deus.

É na experiência de um passeio que vai do pátio externo até chegar ao ambiente interno na Catedral, que se descobre um caminho litúrgico do encontro do ser humano com Deus, testemunhado no espaço proposto pelo projeto. O fiel entra por um corredor estreito e escuro e, como que de repente, se depara com o ambiente da nave recheado de Luz a sua volta.

Diz o autor da obra arquitetônica: “Na Catedral de Brasília, por exemplo, evitei as soluções usuais das velhas catedrais escuras, lembrando pecado. E, ao contrário, fiz escura a galeria de acesso à nave, e esta, toda iluminada, colorida, voltada com seus belos vitrais transparentes para os espaços infinitos”. Que mística! Que Espiritualidade!

Esse mesmo ateu completou seus 103 anos na quarta-feira, dia 15, afirma que não acredita em uma Arquitetura ideal, insubstituível; somente em boa e má arquitetura. Afirma Gostar de Le Corbusier como de Mies van der Rohe, de Picasso como de Matisse, de Machado de Assis como de Eça de Queirós. Esse é Oscar Niemeyer... Um sábio do mundo.

Quando o jornalista Geneton Moraes Neto perguntou como ele definiria a vida, em uma só palavra, a resposta de Niemeyer foi: Solidariedade. Hoje quando penso no oficio de arquiteto não vejo só o profissional, mas vejo o ser humano que faz a espiritualidade resultar em espaços físicos. Devo parte deste pensamento ao mestre Oscar.

Por isso, se você for um ateu declarado, saiba que a sua espiritualidade pode ajudar o outro a mudar para melhor. Isso é uma Responsabilidade com a Solidariedade! Acredite. Não dá para fugir do Espiritual.

Disse Niemeyer certa vez: “A Solidariedade justifica o curto passeio da vida”. (...) “É tolice dizer que as coisas são imutáveis. Tudo pode ser mudado. Só aquilo no qual acredito e certas convicções permanecem as mesmas”. (...) “Acho muito bom a pessoa se recolher e ficar pensando em si mesma, conversando com esse ser que tem dentro dela, que é nosso sósia, né? Eu converso com ele a vida inteira”.

Lembro do dia, na minha adolescência, em que passeava de carro pelas ruas do Recife com meu Pai (um comunista convicto naquela época), quando ele me perguntou: “Que vais querer ser?” Eu respondi: Arquiteto. Depois de alguns segundos de silêncio, ele respondeu: “É... O companheiro Niemeyer é um dos grandes... Sábio do mundo...”.

Foi aquela a benção que recebi de meu pai...

    Amém para meu velho! Meu Obrigado para Niemeyer!