sábado, 30 de outubro de 2010

Um sucesso pela contramão


A idéia de sucesso está mudando. O paradigma do mundo moderno tem dado espaço ao mundo “sustentável”. Aquilo que carrega a imagem de continuidade diante do instantâneo parece ganhar força como contraposição nesse tempo em que o humano está fragmentado em sua consciência. Afinal, o progresso que a humanidade tem experimentado não tem sido suficiente para mudar o coração humano.

Uma consciência humana moldada pela fragmentação e descontinuidade dá lugar a uma consciência integralizada que não cede lugar para a numerificação do ser.

Essa tal modernidade reduziu a experiência humana ao instante vivido, ao descartável, ao fast-food, ao self-service, sem sentido para a continuidade e sem significado para a memória histórica.

No entanto, o sucesso que é algo subjetivo – claro, o que é sucesso para mim pode não para você – ele não tem referenciais de valores e crenças para a maioria das pessoas hoje. A identidade passou a seu uma peça de roupa. Pois, troca-se a persona de acordo com a imagem que serve ou se rejeita a mesma por contento...

O “Carpe Diem” fixou-se na cabeça de muitas pessoas, e elas começaram a acreditar que vão morrer amanhã... Ou, que o amanhã é o hoje. Ora, sendo assim, sem futuro não há o porquê de sonhar. O ser humano passou a deteriorar a própria capacidade de sonhar, e isso nos faz lembrar das palavras do Reverendo Martin Luther King Jr: “O homem é nada sem um sonho...”.

Ser grato nesta lógica é ter o prazer realizado individualmente e de forma pública, uma vez que não há necessidade de sacrificar os próprios interesses por causa do outro.

Sem lembrar que o futuro é o que se deixa e não o que você leva dessa vida, se propõe uma capacidade infinita de realização, atribuindo valor extremo a uma vida de prosperidade e sucesso organizado em torno de padrões de consumo.

Diante disso, vemos uma reação que surge na contramão dessa experiência moderna no ocidente. Um novo paradigma vem no horizonte, na alvorada de um novo tempo, trazendo um novo conceito de sucesso humano. Ele traz uma exigência de ética e de valores virtuosos que vêm para preencher o vazio existencial e a falta de significância da vida humana, não respondidos pela ciência e pela tecnologia. Uma condição histórica que convida o homem contemporâneo para a maturidade e que promulga que o futuro existe, e que se pode chegar lá; e não chegar lá sozinho, mas junto.

Isso é sustentabilidade - um projeto de sabor perene e renovável. Um sucesso que é baseado em valores é algo que não passa com a chuva, ele alcança as gerações futuras que virão e se abastecerão do mesmo. É um sucesso que promove o sucesso do outro. È algo que torna o futuro viável para todos e que alimenta a capacidade de um sonho coletivo comum. É o transformador das realidades maiores...

Como disse Dom Helder Câmara: “um sonho que se sonha só, é apenas um sonho que se sonha só; mas sonho que se sonha junto é realidade”. Sonhemos!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Caçadores de Felicidade



Quando se trata de abraçar a felicidade o termo solidão é antagônico. Ninguém sabe o que fazer com a felicidade quando se está só. Já disse um viajante americano: “A felicidade só é real quando partilhada”. O que é a felicidade, então?

É a vida, uma virtude, uma teoria ou contemplação? Poderia ser atividade humana guiada pela razão, que não se realiza de forma acidental, mas mediante a aquisição de valores virtuosos no agir constante. A felicidade alavancada pela virtude exige condições que não se bastam sozinhas para se realizarem, como a liberdade por exemplo. Então, por que o ser humano não é um caçador de virtudes? Por quê?

Não seria errado afirmar a existência é boa para o homem virtuoso, e ele se considerando como tal deseja para si o que é bom e para o outro também. Se cada um deseja para si o que é bom, não sendo suficiente, infelizmente deseja possuir todas as coisas do mundo com a condição de continuar sendo quem é. Na essência, ele luta contra o desejo pessoal de viver em harmonia consigo mesmo, marcado pela recordação de seus atos passados e das suas esperanças para o futuro, que são boas, e, portanto, torna-se um caçador do “passarinho que está pousado no seu dedo; mas que pode voar a qualquer momento”...

Esse passarinho é apreciado com razão e sensibilidade, mas não pode ser aprisionado. O seu caçador tendo consciência de si, de suas fragilidades e de suas forças partilha as suas virtudes mais valorosas, por isso beija o sagrado.

Mas quem tem a consciência de si, por vezes, esconde suas fragilidades e confunde suas forças. Torna-se um ser perdido e solitário, que confunde o sentido de sua existência com devaneios. Não caça nada.

De fato, a felicidade é racional, no entanto não se explica; pois se vive a felicidade. Esqueceram de dizer isso aos racionalistas do ocidente que enrugaram a contemplação, reduziam o mistério e expurgaram o sagrado... Sorte que os poetas guardaram para si estas armas poderosas de caça.

Quando caçamos esse passarinho contemplamos a beleza do jardim, até que ao nosso dedo pouse o pássaro novamente. Sendo obra do Criador, somos também parte do jardim... Como diz Rubem Alves: Acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria.

Talvez pudéssemos trocar o verbo caçar por perseguir, mas não seriamos felizes sem o desafio da paixão. Afinal, quem é apaixonado caça mais do que persegue. Então, quando pensar em felicidade, cace! Mas cuidado, ao encontrá-la partilhe logo com os outros também, lembre-se que o pássaro pode voar do seu dedo a qualquer momento...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

“Quando a gente não quer, qualquer desculpa serve...”



Das mais marcantes propagandas da televisão que tenho lembrança, uma é campeã. Trata-se de um comercial de uma rede especializada na venda de óculos de grau em Recife, chamada Casa Lux Ótica.
Tudo começava num palco iluminado de um teatro vazio. Nele, homem sentado numa cadeira, sozinho, olhando fixamente para um ponto da platéia, dizia: “Tem gente que precisa usar óculos de grau, mas não usa. Diz que é feio, que incomoda, que envelhece e que machuca. A visão é uma coisa mais importante do que muita gente pensa. Veja bem, óculos apropriados podem até dar charme e distinção... Procure o seu oculista, e leve sua receita numa casa séria, que trate do seu problema profissionalmente. Eu, por exemplo, não preciso usar óculos de grau. Mas gostaria muito de poder usá-los...”.
Então, o aquele homem saía, tateando a cadeira, alcança uma bengala e levantando sai de cena fazendo toc-toc com a bengala... Ele era cego!
Essa frase: “Quando a gente não quer, qualquer desculpa serve”, ficou tão popular, que tornou-se um axioma popular, algo muito falado pelo povo. Esta expressão apresenta uma verdade ética incontestável: quando nós não queremos algo, uma situação de continuidade, um compromisso, uma tarefa, uma mudança, então qualquer desculpa que possamos usar, irá servir de pretexto. Corremos o risco de transformarmos pretextos em argumentos.
Com o apelo ao individualismo ao egocentrismo presentes na ética da pós-modernidade surge então um grande veneno social para as gerações futuras: a falta do QUERER mudar. Cada vez menos as pessoas querem confrontar-se com suas limitações, com seus interiores, seus erros, defeitos, frustrações, suas fragilidades, suas curtas visões.
A superficialidade impera numa sociedade em que as pessoas não querem mudança. Tudo parece de plástico: os tratamentos, os sorrisos, os abraços, as relações... E é claro que quando falamos de algo novo em nós mesmos, pensamos em algo que nos faça crescer, amadurecer, integralizar e se redescobrir.
Muitos “cegos” reclamam demais de tudo e de todos, porém nunca mudam. Por que será? A explicação é que, na verdade, elas NÃO QUEREM MUDAR. Querem que tudo mude ao seu redor, mas uma mudança substancial em suas vidas não faz parte do seu querer. Por isso continuam sem enxergar claramente a realidade.
Afinal, “quando a gente não quer, qualquer desculpa serve...”.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Arrisque-se, morra ou ria...!


Se quisermos saber onde dorme a liberdade, olhemos para o risco. A pessoa que corre riscos é livre. Corra o risco de amar. Para qualquer economista uma afirmação é uma verdade inquestionável, e essa pode ser tratada como universal. Não existe investimento seguro.

Evitar todos os envolvimentos, fechar-se com segurança no esquife de seu egoísmo seguro, sombrio, imóvel, sufocante, não mudará nada. Nada será quebrado... Alguém já disse que “o único lugar fora do céu onde você pode se manter perfeitamente seguro contra todos os perigos e perturbações é o inferno”.

Na verdade ser livre é isso: Correr riscos! Corra o risco de amar. Corra o risco de perdoar. Corra o risco de mudar... Corra o risco de caminhar ao lado de Deus. E isso não é fácil ou simples. Por isso a liberdade é uma virtude singular. Para tê-la é preciso coragem. Não a dos guerrilheiros, não a dos belicosos, não a dos estóicos, mas possivelmente a dos mais humanos homens. Lembro-me da afirmação de Boff quando se refere a Cristo como um libertador: “Humano como Ele foi, só podia ser Deus mesmo...”.

Corra o risco de renunciar seu ego. Esse é o grande desafio da espiritualidade sadia. Lispector disse certa vez: “Só o que está morto não muda! Repito por pura alegria de viver: A salvação é pelo risco, Sem o qual a vida não vale a pena!”.

A maior experiência de liberdade é entregar a vida a Deus. Correr o risco de entregar a vida inteira para Deus é uma experiência pessoal e saborosa. Pena que o ego muitas vezes atrapalha essa liberdade... Quando o ego vence o risco, tudo é mais aprisionado.

O risco de chorar parece ser o risco de parecer sentimental. O risco de estender a mão parece o risco de se envolver. O risco de expor os sentimentos parece o risco de mostrar quem somos de verdade. O risco de defender sonhos e idéias parece ser o risco de perder pessoas. O risco de amar parece ser o risco de não ser correspondido. O risco de tentar parece ser o risco de fracassar. O risco de viver parece ser o risco de morrer.

O chamado de Jesus tem reivindicações muito difíceis, mas ao mesmo tempo libertadoras: “Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram”. Livro de Mateus, capitulo 7, versos 13 a 14. Já Senega, 55 anos antes de Cristo já recomendava: “Rir é correr o risco de parecer tolo.

Assim, o maior perigo da vida é não arriscar nada. Muitas pessoas não correm nenhum risco, não fazem nada, não têm nada e não são nada. No objetivo de evitar sofrimentos e desilusões, mas não conseguem nada, não sentem nada, não mudam nada, não crescem nada, não amam ninguém, não vivem a vida. Preciso terminar esta reflexão te dizendo: Arrisque-se, morra ou ria...!

domingo, 3 de outubro de 2010

Uma tarde de Caricaturas na inaugur. da Mc do Royal Plaza em Santa Maria - RS










“Tiriricando” o voto...


O voto como uma dimensão simbólica nas sociedades democráticas chega próximo a representação do sagrado. Parar a rotina e refletir sobre o significado das funções públicas no nosso dia a dia toma forma na consciência e invade a dimensão do privado, nessas horas.

Aprendemos desde cedo que votar é um dever e um direito de todo o cidadão. Diferente de outras democracias no mundo, no Brasil, somos obrigados a comparecer na seção eleitoral para nos revestirmos da capa que vela a nossa suposta liberdade. Tudo simbologia... Parece uma completa sintonia com a dinâmica das relações humanas que fazem parte de nosso cotidiano.

Infelizmente, para muitos, fazer política é aquilo que se resume ao período eleitoral. Muitos percebem que a vida dos últimos anos ficou resumida em uma propaganda eleitoral, e que na medida em que refletem sobre suas opções eleitorais, entendem que no intervalo de dois anos a vida aconteceu. Sentimo-nos como tolos, que não sabem nada do que fazem conosco, para nós e por nós na política publica, e que no período de eleição somos os avisados de que nada sabemos para “além do horizonte”...

Assim, diante da possibilidade simbólica da mudança, alguns preferem uma terceira via, a do protesto silencioso do voto em branco ou nulo. Há também aqueles que se alienam ou se revoltam totalmente, no sentido de transferir para outro a responsabilidade pelo seu destino ou banalizá-lo. Hoje seria aquilo que chamo de “Tiriricar” o voto.

O voto assumiu a dimensão simbólica de que é possível colocar ordem nas coisas a partir de uma simples adesão, e que, ao escolher o candidato, estamos desobrigados de nossa responsabilidade social, moral e espiritual. Quando escolhemos, pomos em registro nossa consciência, que muitas vezes ainda é imatura. Escolhemos a possibilidade da realização de um sonho, de um projeto de cidade, de nação e de mundo que imaginamos possível. Acreditamos que o nosso candidato representa aquilo que acreditamos simbolicamente construir com ele.

Votar é mais do que escolher um candidato. È dar forma ao poder. Por isso que voto tem conseqüência real. Porque é um ato de nossa consciência, o qual somado a outros tantos gestos semelhantes, poderá definir o rumo das circunstâncias que envolvem a nossa vida.

A oportunidade de participar de um interregno eleitoral construindo o futuro junto com os que vestiram o poder é experimentar o resultado da escolha. Exige atitude! Ou diferente disso, podemos ignorar tudo e acreditar que é melhor mesmo é “Tiriricar” o futuro também... Boa escolha.