terça-feira, 29 de junho de 2010

HSM Online 16/06/2010

Gestão
‘Nós’ continua sendo uma soma de ‘eus’
Professor da ESPM chama atenção para o desenvolvimento da criatividade e o maior capital de um país: o cérebro de seus habitantes

Ninguém sabe como um dos leões saiu da jaula durante o espetáculo do circo. Durante algum tempo ninguém da plateia ousou se mexer, falar, piscar ou respirar. Cúmplices de um literal suspense holístico, daqueles de câmera lenta ao som de um violoncelo. A situação era inédita tanto para os espectadores, como para os funcionários do circo, e, principalmente para o leão.

Diante do bizarro, coube ao leão, que se movia bem lentamente, quebrar o encanto. Ele rugiu, como cabe aos leões, mesmo os de circo. Foi a senha mágica para o pânico geral. Todos corriam e gritavam para todos os lados. O leão, talvez assustado com o desequilíbrio do impasse, rugia cada vez mais. Naquela confusão geral, um espectador com a perna engessada e sentado em uma cadeira de rodas gritava bem alto: - “Calma, senta que o leão é manso!”

"Os elétricos ainda não são economicamente viáveis. Mesmo que a tecnologia avance, o motor de combustão terá vida longa". É o discurso do ítalo-canadense Sergio Marchionne, presidente mundial da Fiat (1). Engessado na cadeira de presidente de um conglomerado gigantesco com dificuldades de se mexer com desenvoltura, ele está gritando alto que o leão é manso.

É a atitude que se espera de um presidente preocupado com o seu cargo, com seu bônus, com a sua empresa, com seus acionistas e com os movimentos dos seus concorrentes. Mas o leão está rugindo há algum tempo sobre a urgente necessidade de o mundo investir em uma nova economia menos poluente e mais sustentável.

Vamos cruzar outras duas informações

A primeira vem do X Prize Foundation (2), que criou uma competição internacional com o seguinte desafio: a equipe que conseguir projetar e desenvolver um protótipo que rode mais de 50 quilômetros por litro de combustível ganha US$ 10 milhões. O mesmo prêmio pode ser conquistado por um veículo elétrico capaz de rodar 321 quilômetros entre uma carga de energia e outra.

O desafio foi lançado em 2004, depois que a Scaled Composites criou a primeira aeronave civil capaz de fazer um vôo espacial e conquistou a premiação. A novidade é que 41 competidores continuam na disputa, depois da eliminação de mais de 100 projetos, porque uma das regras é que o carro vencedor possa ser produzido em série logo depois da premiação. Nenhuma grande montadora aceitou participar, mas ninguém tem dúvidas de que alguém vai conquistar o prêmio.

A segunda veio da Wired Magazine que apresentou ao grande público a produção entre 500 e 2 mil unidades do Rally Fighter (3), um veículo de código aberto que qualquer pessoa pode copiar. Uma microfábrica, chamada Local Motors, criou um site e uma competição para o design de um carro inédito. O jovem designer Sangho Kim ganhou o prêmio de US$ 10 mil e o direito de acompanhar de perto o desenvolvimento do projeto do off-road em conjunto com a empresa, que se responsabilizou pelo chassi, motor e transmissão, e com a comunidade de voluntários conectada digitalmente que aprimorou o design em processo croudsourcing. A Local Motors é a primeira companhia automobilística aberta a alcançar o estágio de produção.

Qual é a significância dessas notícias? A percepção de que algumas mudanças importantes também podem vir de uma multidão colaborativa de inventores, designers, empreendedores e investidores mais abertos e com maior visão. As grandes empresas e os governos estão voltados demais para si mesmos e ocupados com a sobrevivência econômica de seus países.

Os conquistadores de um espaço relevante no mercado não querem perder nenhuma parte da sua conquista. Preferem restringir a humana e necessária missão altruísta somente ao seu grupo. Sentados na autoridade das suas carreiras, preocupados com a última ameaça recessiva, emitem o recado: - Senta, que o leão é manso!

Provavelmente ‘il signore Marchionne’ tenha razão e o motor a combustão tenha uma longa vida, porque as grandes mudanças são traumáticas e desconfortáveis. Lembro-me de ter visto, quando cursava a universidade de engenharia, uma foto do Edison Electric Car de 1913 que não emplacou. Quase 100 anos depois, estamos tentando inventar novas soluções menos poluentes, mais sustentáveis e economicamente viáveis para o consumo em massa.

Não estou cobrando nada da Fiat, mas seria melhor para todos nós se essa respeitada empresa patrocinasse e lançasse um desafio aos inventores de plantão para a busca de uma solução colaborativa para o difícil desafio da mudança planetária. Olhando para nós, os brasileiros, por que não aproveitar o momento para repensar o futuro nacional com mais criatividade? O que o Brasil está esperando para se reinventar? O maior capital de um país é o cérebro dos seus habitantes. Vamos à obra, inventar um novo país. Mesmo que nós sejamos uma soma de “eus”, “nós” é uma entidade mais importante do que Eu.

Rique Nitzsche (Professor de Design Estratégico da pós-graduação da ESPM-Rio e Diretor de criação da AnimusO2 (www.animus-o2.com), especialista em Shopper Innovation)

Referências bibliográficas utilizadas pelo autor: 1) Entrevista das páginas amarelas da Veja com Sergio Marchionne, presidente mundial da Fiat, edição 2155, 10 de março de 2010; 2) X Prize Foundation: "O super carro verde", matéria de John Elkington, Época Negócios, 04 de março de 2010; 3) Rally Fighter: "Átomos são os novos bits", matéria de Chris Anderson, editor-chefe da Wired, Revista Exame, 24 de fevereiro de 2010 e "A nova revolução industrial" de Denis Russo, blog da Veja, 08 de março de 2010.

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16/06/2010