sexta-feira, 5 de março de 2010

Quando o peixe aprodrece...


Aprendi como toda criança praieira a saborear um bom peixe, orientado por meu pai. Meu velho, que é um bom degustador dos pratos marinhos, sempre me ensinou a escolher o peixe de acordo com o prato a ser servido, e a encontrar o rico momento de oferecê-lo aos amigos. Como não poderia deixar de ser, continuo por apologia e testemunho a garantir a sua afirmação paternal de que “peixe bom, é peixe do mar, pois peixe de rio tem gosto de terra...”.

Tenho certeza que, qualquer um que saborear um bom Sirigado ao molho de camarão, uma fritada de Cioba, uma Garoupa ao molho de tomate, um Beijupirá na telha, ou uma Agulha branca frita como tira gosto, deixará qualquer Dourado em orfandade...

Entretanto, lembrei que saborear um bom peixe pode ser uma experiência na espiritualidade cristã...

A palavra grega para peixe é "Ichthys". Já no primeiro século, os cristãos formaram um acrônimo a partir desta palavra: Iesous Christos Theou Yios Soter, significando: Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. O peixe tem outras referências simbólico-teológicas também, pois Cristo alimentou cinco mil pessoas com 2 peixes e 5 pães (uma refeição que nos recorda que a partilha amorosa é sempre uma festa), e também desafiou seus amigos a serem "pescadores de homens"...

Lembrei-me também, que a Água do batismo praticado por imersão na Igreja Primitiva, criou um paralelo entre peixes e convertidos, e que no segundo século, um dos pais da igreja, o teólogo Tertuliano, observou isso desta maneira: "Nós, pequenos peixes, seguindo a imagem do nosso Ichthys, Jesus Cristo, somos nascidos na água".

De fato, gregos, romanos, e muitos outros povos utilizaram o símbolo do peixe antes dos cristãos. Porém o peixe, ao contrário da cruz, por exemplo, atraiu pouca suspeita, tornando-se historicamente um emblema cristão secreto e perfeito para crentes perseguidos nos primeiros séculos. Sabemos que na história da perseguição romana aos cristãos, eles utilizaram a marca do peixe para selar encontros em lugares reservados, como nas catacumbas (lugar escolhido comumente para reuniões, estudos e orações nos primeiros séculos), ou para distinguir amigos de inimigos.

Nenhum símbolo significa a mesma coisa para todas as pessoas, em todos os momentos. Para tanto, os primeiros cristãos conseguiram transformar o peixe em um poderoso símbolo demonstra uma interpretação criativa e o poder das relações humanas, ante a uma ignorância ou a tendência de sincretismo. Infelizmente, o cristão de hoje na maioria das vezes, não entende nada quando vê esse emblema, e muitas vezes só recebe o nome de cristão por batizado e não por uma vida que tem um propósito de seguir as palavras do Cristo vivo.

No entanto, não existe caminhada sem liderança, pois a sociologia nos mostra que a ordem sempre será necessária para a vida social. Assim, podemos não aceitar sermos líderes, mas concordaremos sempre que um exército de cervo comandados por um leão é muito mais temível do que um exército de leões comandados por um cervo... Por isso, o próprio Jesus nos lembra hoje que somos chamados para sermos leões que pescam e cozinham para o homem “descentrado” da pós-modernidade...

Não existe peixe sem cabeça, nem em rio e nem em mar. Somos chamados para uma liderança sadia e multiplicadora sempre! Somos chamados para múltiplas lideranças e relacionamentos. Somos chamados para ser cabeça!

Conhecendo mais sobre o Ichthys dos cristãos aprendemos mais sobre o valor do pescado, sobre qual está o cheiro fresco do bom peixe. Ele nos faz atentar que quando o cheiro de nossa liderança não está bom, é porque o peixe está apodrecendo e ainda não servimos a ninguém.

Ah, sabe o que meu pai me dizia sobre isso? Que quando o peixe começa a apodrecer; começa pela cabeça...