sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Dai a Roma o que é de Roma...


Há alguns dias atrás, o Vaticano em uma dita ação “pastoral” decidiu permitir que os anglicanos pudessem se “converter” ao catolicismo e conservar as próprias tradições. Essa decisão dividiu as opiniões entre os que consideram essa atitude “cínica” por parte da Sé romana e os que apontam uma oferta genuína para ajudar as pessoas que resistem em aceitar a ordenação feminina (inclusive de bispas) e abraçar as discussões sobre a condição sexual na igreja.
O Papa Bento XVI anunciou uma nova estrutura que tornará “mais fácil” para os anglicanos, inclusive os sacerdotes casados, “voltarem” para o seio da igreja católica, respeitando certas tradições. Esse decreto papal, anunciado pelo cardeal americano William Joseph Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, permitirá a ordenação de sacerdotes católicos entre os antigos membros do clero anglicano, inclusive os casados, com a exceção dos bispos anglicanos casados.
Isso só ajudará na compreensão de muitos sobre como ainda se faz ecumenismo de forma barata no mundo. Sabe-se que a Igreja anglicana tem uma tradução de 17 séculos e que ela nunca foi totalmente alinhada a igreja do continente desde a tradição da “Igreja Celta” no II século, aos pré-reformadores das ilhas britânicas. Seria imprudente historicamente sugerir que uma igreja é filha da outra e não resultado da missão da “Igreja Primitiva”. Entretanto, a abertura da igreja anglicana, mais que em outros tempos, paga um alto preço por ampliar discussões como a benção do casamento homossexual e a ordenação de mulheres ao episcopado.
O Arcebispo de Cantuária, Dom Rowan Williams, o líder espiritual da Comunhão Anglicana, enfatizou diante da atitude papal, que é um sério erro achar essa seria uma resposta aos problemas internos da Comunidade Anglicana, que tem mais de 80 milhões de fiéis.
Para tanto, algumas questões chamam a nossa atenção para o futuro. Uma delas é essa possibilidade de criação de prelaturas pessoais, anunciada por representantes do Vaticano, que não traz nenhuma novidade. Dados mostram que desde o século XIX, a Igreja de Roma tentou de alguma maneira, absorver o maior número possível de fiéis e igrejas anglicanas, como afirma o bispo Dom Carlos López Lozano da Igreja Espanhola Reformada Episcopal (Comunhão Anglicana). Dom Lozano recentemente anunciou que, na atualidade, o número de católicos romanos que abraçam o anglicanismo é muito maior daqueles que o abandonam para se filiarem ao catolicismo. Disse ele: “Por cortesia, respeito e discrição, e seguindo a tradicional política ecumênica de nossa Comunhão Anglicana, não costumamos fazer públicos esses dados”. Ainda acrescenta Lozano: “Os católicos romanos que ingressam na Comunhão Anglicana tendem a se integrar de modo pleno, assumindo a nova identidade religiosa sem a necessidade da criação de estruturas especiais a eles voltadas...”.
Outra questão é a possibilidade da busca de um clérigo católico deixar a igreja romana para se casar, ser ordenado sacerdote anglicano e depois voltar para a igreja católica. Essa “ponte” torna a reflexão ainda mais pastoral para ambas as Igrejas...
Quanto aos que estão na igreja anglicana se sentindo católicos, esses estão equivocados, e certamente desconhecem sua eclesiologia, teologia, pastoral e história. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa... Anglicanos não são católicos romanos e católicos romanos não são anglicanos, se assim não fosse suas identidades estariam seriamente comprometidas. Aqueles que se dizem anglicanos fazendo o “caminho de volta”, nunca foram realmente anglicanos. Diante disso podemos recomendar: Dai a Roma o que é de Roma...
Por fim, se aqueles que por motivos de consciência abandonam a Igreja Romana ou a Anglicana, que suas decisões sejam abençoadas por Nosso Criador, pois os motivos de consciência sempre são os mais respeitáveis que se pode alegar.

sábado, 24 de outubro de 2009

Ser capaz de ser feliz


Recentemente ministrei uma palestra sobre “Espiritualidade nas Organizações” em uma Empresa, e como sempre, diante de um questionamento sobre qual é o maior desejo das pessoas a resposta foi: Uma maneira possível de ser feliz. A primeira busca que o homem da pós-modernidade faz mais intensamente que em todas as épocas da civilização é busca do sentido da vida.

Podemos considerar como uma proposta madura de espiritualidade a seguinte afirmação: “Amarás teu Criador com todas as tuas forças, teu entendimento, e coração, bem como, amarás teu semelhante, assim como amas a ti mesmo”. Diante desta proposta, podemos afirmar que a ética nesse de tempo atual não aponta para uma harmonização, mas para o conflito.

Sem dúvida, a ética promovida por relacionamentos sadios entre o ser humano e ele mesmo, o ser humano e seu Criador e o ser humano e seu semelhante (que envolve também o meio ambiente) é uma grande riqueza para um mundo carente de saúde e harmonia nas relações.

O “mapa” que guia as pessoas nas suas condutas precisa ensinar sobre o desejo de encontrar explicações sobre o sentido da vida, sobre o que é bom e valioso para uma vida feliz.
A ética e a estética que brota de uma espiritualidade madura, implica em uma compreensão do homem enquanto ser que se relaciona com o mundo, consigo mesmo e com os outros. Porém o principal problema da mensagem cristã hoje não se restringe ao problema moral. Pois a voz desta mensagem está cada vez mais sem credito no ocidente, e isso se revela no alinhamento desta instituição, chamada Igreja, com os aspectos mais institucionais ante os orgânicos, pastorais e proféticos politicamente.

Isso suscita perguntas velhas para um momento novo: Como deve se dar o diálogo cristão com o mundo? Como se dá o discurso cristão diante das grandes questões humanas desse tempo? Como desenvolver a fé tendo em vista a questão da sustentabilidade?

A mensagem cristã para hoje deve, e naturalmente pode fazer sentido nestes dias, principalmente no que diz respeito ao sentido da vida, à esperança de um mundo sustentável e a temas como o da bioética.

Diante de um início de século onde o individualismo, a competitividade (auto-afirmação), a raiva, o egoísmo e o medo são os combustíveis que motivam várias doenças da alma e das relações, parece que chegamos a um momento em que a “Pirâmide de Maslow” precisa ser vista de invertida... A necessidade de Segurança passa a estar sustentada na necessidade de Auto-atualização (significado, significância) e não o contrário.

Chegamos a um tempo urgente para a reflexão ética no pensamento contemporâneo que serve como base para a reconstrução de um ser humano fragmentado pela modernidade, que o ensinou a construir sua compreensão da vida sem a hipótese Deus, e o convenceu que era um super-homem.

Contudo, a mensagem de Cristo nos ensina que ser feliz é uma atitude. Essa atitude começa pela capacidade que a pessoa tem em responder como está a saúde da sua relação com o Criador, com o seu semelhante e o meio ambiente, e com ela mesma. Somos pessoas de capazes disso? Sim, claro! Como diria Chardin: “Somos seres espirituais tendo uma experiência humana...”.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Espiritualidade nas organizações

Muito recentemente no Brasil tem se tratado a espiritualidade como uma inteligência que, se bem desenvolvida e madura, tem um papel fundamental na vida do ser humano e nos meios onde ele se organiza coletivamente. A espiritualidade não é espiritualismo e muito menos religiosidade. Quando falamos de espiritualidade não estamos abordando métodos de meditação ou mercadologia da fé, bem como nenhuma regra de oração, ritos ou dogmas.
Para clarear ainda mais o conceito, vale salientar que espiritualidade e religião não são, porém, sinônimos. Ser alguém maduro espiritualmente não significa exibir qualquer religião. Mais especificamente, a espiritualidade diz respeito ao fato de as pessoas desejarem de serem únicas, de estarem em união com algo superior a si próprios, de serem úteis, de compreenderem e serem compreendidos, de constituírem valores que tragam saúde aos seus relacionamentos, descobrirem o sentido de sua existência, reconhecerem o propósito de suas vida e a necessidade de auto-organização interior.
Hoje estamos testemunhando um trabalho sério por parte de pesquisas acadêmicas no objetivo de oportunizar a contribuição da espiritualidade nas organizações. A espiritualidade nas organizações está representada na realização do trabalho com significado, no contexto de uma comunidade, com um sentido de alegria e de respeito pela vida interior.
Alguns estudiosos afirmam que a espiritualidade nas organizações pode ser interpretada como o reconhecimento, pela organização e pelos seus líderes, de que os colaboradores têm uma vida interior que alimenta, e é alimentada, pela realização de trabalho com significado num contexto de comunidade. Outros sugerem que a espiritualidade nas organizações é um quadro de valores organizacionais, evidenciados na cultura da organização, que promove a experiência de transcendência dos colaboradores por meio dos processos de trabalho, facilitando o seu sentido de conexão com as outras pessoas, de um modo que lhes proporciona sentimentos de plenitude e alegria.
O tópico adquiriu ainda crescente visibilidade nos estudos organizacionais e no “modo de vida” de muitos práticos. Afirma-se que o interesse pela matéria derivou da intensa espiritualidade dos executivos seniores do Silicon Valley, e com a generosidade que emanava de suas vidas interiores. Em 1993, a consultora de líderes, equipes e organizações Judith Neal fundou The Association for Spirit at Work (http://www.spiritawork.com/). Também na Santa Clara University, desenvolveu-se o Seminar in Spirituality and Business Leadership, e os executivos que o freqüentaram alegam efeitos muito positivos sobre si próprios, seus colaboradores e organizações. Um certo executivo definiu-o como “o desejo de encontrar o propósito último da vida e viver de acordo com ele”.
O tema também penetrou profusamente na arena científica. De forma mais contundente, desde 1992 assiste-se a um aumento súbito de conferências e workshops, assim como a uma explosão de livros na área, principalmente fora do Brasil. Aqui o tema é abordado timidamente no meio acadêmico. Esse tópico foi também reconhecido pela Academy of Management (a mais antiga e maior escola de gestão acadêmica do mundo), que criou, em 1999, o grupo de interesse chamado: “gestão, espiritualidade e religião”.
Sem dúvida o estudo da espiritualidade contribui na vida pessoal, seu planejamento e gestão, bem como está constatado que a mesma fomenta o comprometimento afetivo e normativo das pessoas no ambiente onde estão inseridas, seus grupos e organizações.
E você, sabe o que é espiritualidade nas organizações?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

“Se for pro Gol! Me chama, que eu vou!”

Alguém já disse que o narrador esportivo é um “vendedor de ilusões”. Está na sua labuta descrever o que ocorre num jogo de futebol, com precisão e detalhes. Entretanto, o que sempre marca e identifica a cor da voz do narrador é sua frase de efeito... Aquelas que só de ouvir sabemos de onde vem e para onde vai.
Essas frases e bordões são patrimônio dos grandes narradores brasileiros. Waldir Amaral dizia: “O relógio marca...”. Lembro do saudoso Adilson Couto dizendo: “Tem gente mexendo no placar...” De Roberto Queiroz bradando: “É cacete! Que cacetata!”. Fernando Sasso gritando: “Tá no filóóó!”. Osmar Santos no seu “chiruliruli-chirulirulá”, bem como Galvão Bueno iniciando suas transmissões com o famoso: “Bem, amigos...”.
Quando cheguei em Santa Maria da Boca do Monte não me furtei a acompanhar os jogos dos times locais nas rádios da cidade. Foi quando me deparei com uma voz afiada, de linguagem clara e que rapidamente seduziu por sua vibração ímpar. Era a voz de um narrador que chegava a falar até com a bola dentro da rede. Esse narrador dizia: “Se for pro Gol, me chama! Me chama, que eu vou!”.
Marion Mello, o “Garganta do Vento Norte” é um dos grandes. Homem de imprensa, é, sem dúvida, um patrimônio dos santa-marienses. Recentemente, o seu programa de rádio semanal “Roda Brasil” completou quinze anos de promoção ao esporte, a cultura e ao entretenimento. Marion debuta com competência a difícil tarefa de falar dos heróis de nossa cidade.
Os heróis são aqueles que batalham por uma conquista, por uma vitória, seja ela qual for, seja ela quando for. Heróis são os santa-marienses, os gaúchos, os brasileiros de cada dia, que lutam na conquista de um lugar ao sol, de um mundo melhor, por uma vida vivida com vida. No entanto, os heróis têm por trás de suas máscaras e fantasias, pessoas comuns... Pessoas que sofrem, que se sacrificam, sacrificam os outros, choram, riem, cansam, tropeçam, levantam, reconstroem, somam e renascem... São pessoas que muitas vezes se esquecem de viver para dar vida ao herói que está na frente da máscara. O atleta, o esportista, o desportista, a pessoa pública, o líder, a celebridade, todos são pessoas comuns por trás do herói ou da heroína.
Sabemos que a ludicidade do ser humano está presente durante toda a sua vida, e não fica guardada apenas na infância. O Lundens faz do Sapiens aquele que gosta de brincar, que gosta de jogar durante toda a vida. Por isso, todos temos um pouco de Super-Man e de Clark Kent, de Mulher Maravilha e Diana Prince dentro de nós...
Para tanto, Marion quando fala desses heróis, o faz de forma diferente de muitos outros que conheço. O “Garganta do Vento Norte” tem uma grande singularidade quando narra, promove e comunica sobre sagas heróicas: Ele chama os heróis de AMIGOS. Conhece as pessoas comuns que estão por trás do “herói”, e as chama pelo nome. Isso faz dele um grande comunicador e um grande ser humano.
Ofereço minhas orações neste jubileu do “Roda Brasil”, ao Marion Mello, para que Deus permita que ele continue narrando a história dessa gente, como só ele sabe narrar. Na certeza que muitos estarão acompanhando esses momentos e ouvindo sua voz gritando: “Se for pro Gol, me chama! Me chama que eu vou!”.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

“Quando a gente não quer, qualquer desculpa serve...”


Das mais marcantes propagandas da televisão que tenho lembrança, uma é campeã. Trata-se de um comercial de uma rede especializada na venda de óculos de grau em Recife, chamada Casa Lux Ótica.
Tudo começava num palco iluminado de um teatro vazio. Nele, homem sentado numa cadeira, sozinho, olhando fixamente para um ponto da platéia, dizia: “Tem gente que precisa usar óculos de grau, mas não usa. Diz que é feio, que incomoda, que envelhece e que machuca. A visão é uma coisa mais importante do que muita gente pensa. Veja bem, óculos apropriados podem até dar charme e distinção... Procure o seu oculista, e leve sua receita numa casa séria, que trate do seu problema profissionalmente. Eu, por exemplo, não preciso usar óculos de grau. Mas gostaria muito de poder usá-los...”.
Então, o aquele homem saía, tateando a cadeira, alcança uma bengala e levantando sai de cena fazendo toc-toc com a bengala... Ele era cego!
Essa frase: “Quando a gente não quer, qualquer desculpa serve”, ficou tão popular, que tornou-se um axioma, algo muito falado pelo povo. Esta expressão apresenta uma verdade ética incontestável: quando nós não queremos algo, uma situação de continuidade, um compromisso, uma tarefa, uma mudança, então qualquer desculpa que possamos usar, irá servir de pretexto. Corremos o risco de transformarmos pretextos em argumentos.
Com o apelo ao individualismo ao egocentrismo presentes na ética da pós-modernidade surge então um grande veneno social para as gerações futuras: a falta do QUERER mudar. Cada vez menos as pessoas querem confrontar-se com suas limitações, com seus interiores, seus erros, defeitos, frustrações, suas fragilidades, suas curtas visões.
A superficialidade impera numa sociedade em que as pessoas não querem mudança. Tudo parece de plástico: os tratamentos, os sorrisos, os abraços, as relações... E é claro que quando falamos de algo novo em nós mesmos, pensamos em algo que nos faça crescer, amadurecer, integralizar e se redescobrir.
Muitos “cegos” reclamam demais de tudo e de todos, porém nunca mudam. Por que será? A explicação é que, na verdade, elas NÃO QUEREM MUDAR. Querem que tudo mude ao seu redor, mas uma mudança substancial em suas vidas não faz parte do seu querer. Por isso continuam sem enxergar claramente a realidade.
Afinal, “quando a gente não quer, qualquer desculpa serve...”.