sábado, 12 de setembro de 2009

Entre sonhos e passarinhos...

Entendemos que a celebração, por essência, é a realização dos sonhos quando esses se tornam realidade. Todo o sonho sonhado que se tornou realidade na vida do ser humano é por si só uma celebração. No entanto, sonhos são sonhados de diferentes formas... Podemos sonhar em conjunto, unidos, em comunidade, como povo, como nação ou podemos sonhar sozinhos. Muitos de nós corremos o risco de estarmos celebrando sozinhos, porque sonhamos sozinhos.

Gostaria de lembrar das palavras de um profeta de nossos dias, meu conterrâneo, o saudoso Dom Hélder Câmara, que na sua sabedoria já anunciava que “um sonho que se sonha só, é apenas um sonho que se sonha só; mas sonho que se sonha junto é realidade”.

Não podemos cair no equívoco de celebrarmos nossas realizações sozinhos, porque assim correremos alguns riscos.

Em primeiro lugar, quando celebramos sozinhos, corremos o risco de sermos excludentes. Diante das comemorações do “Grito do Ipiranga”, sempre em minha mente, e na de alguns, vem à mente aquela imagem que foi encharcada nos livros escolares de 1º grau, talvez a que melhor retrata “heroicamente” a cena histórica do 7 de setembro, o quadro do pintor paraibano Pedro Américo Figueiredo de Mello chamado “Independência ou Morte”.

Nesta pintura, talvez a mais conhecida dos brasileiros, o Imperador D. Pedro I está ao centro com a espada estendida ao céu às margens do Rio Ipiranga soltando o brado de “liberdade” à Pátria. Ladeado da guarda imperial e de uma bucólica paisagem, o “herói” desconhece ao canto esquerdo da cena um homem puxando um carro-de-boi, mau vestido e atônito, sem saber muito bem o que ali se passava. Aquela imagem nos mostra que, o que aquele homem estava vendo o impressionava, mas para ele naquele grito não se encontrava nenhum sentido. Ele estava “de fora”. Ele, talvez o mais brasileiro da cena, representava um povo excluído da festa. De fato, ele não tinha parte naquela celebração.

A quem temos excluído em nossas celebrações? A quem temos deixado de fora dos nossos sonhos? O que temos celebrado inclui o irmão, o amigo, o semelhante? O que os brasileiros celebram tem se tornado uma realidade dantes tão sonhada?

Em segundo lugar, quando celebramos sozinhos corremos o risco de sermos incompreendidos. Lembro do astronauta brasileiro que celebrava o brotar dos feijões em pleno espaço com muita

alegria e realização. Entretanto, muitos não compreenderam tanta alegria com os feijões espaciais, enquanto milhares de crianças no Brasil não têm a oportunidade de se alimentarem dignamente durante o dia, e quando muito, têm um prato diário que desconhece a palavra “feijão”.

Por último, quando celebramos sozinhos corremos o risco de ficar sem futuro. Em casa, no trabalho, na sociedade, no país e no mundo, todos ficamos cansados de “sonhar sozinhos”. Aquele que sonha só, um dia deixa de querer... Quem não quer, é porque já não tem mais esperança. Perdeu a vontade, está conformado, cansado, fatigado...

Em algumas das viagens que fiz pelo interior do estado do Rio Grande do Sul conheci a bravura e a altivez com que o Quero-Quero se comporta diante de uma ameaça. Costumeiramente, este pássaro, em alto e bom som, alerta a todos do perigo na onomatopéia de seu canto: Quero, quero... Quero, quero...

Diante do perigo do cansaço, da ameaça fadiga, da desesperança, esse destemido pássaro nos desafia com a expressão do seu cantar. Afinal, o que queremos? Que família queremos para nós? Que sociedade queremos para nós? Que Brasil queremos para nós? Que mundo queremos para nós? Que futuro queremos para todos? Que celebração queremos?