sexta-feira, 21 de agosto de 2009

À procura de extintor e “fora da casinha”...

O que torna os nossos tempos tão sombrios quanto a busca humana pela plenitude da vida e o cuidado que devemos ter com esse sopro divino? Bem, podemos crer que muitas coisas intentam mais que o “prazer” que nutrirmos pela satisfação da nossa alma. Muitos são os convites para o “hedonismo” efêmero de nossos dias, e pouca é a experimentação daquilo que podemos diferenciar “prazer” de “satisfação”.
Vivemos num tempo de “impermanências”... A “normalização” dos rompimentos afetivos parece denunciar que os seres humanos não têm a capacidade de cuidar das dificuldades próprias de qualquer relacionamento a sua volta. Não se permite a necessária reflexão sobre nossas perdas, quando inevitáveis, e dos vínculos que fizeram e fazem parte da nossa trajetória pessoal. Modelos de sucesso passageiros, sem compromissos duradouros, que “ficam”, mas não permanecem, ocupam o lugar das metas de longo alcance.
Esses padrões privam o aprendizado, o amadurecimento, as descobertas caminhantes e os valores essências. Muitas vezes impedem que gerações conheçam suas raízes, histórias e narrativas que as precederam e as forjaram. Assassinaram o termo “longo prazo” em que se garantiam os projetos da vida. Hoje, pode-se mudar a todo tempo, fazendo projetos fragmentados e frívolos... A ausência de “longo prazo” corrói a confiança, a lealdade e o comprometimento mútuo.
Na era do “não existe longo prazo” frustram-se ferozmente os projetos familiares, profissionais, políticos e espirituais. Na família, por exemplo, aparece na compulsão pela “troca”. A busca do não se comprometer com relacionamentos duradouros e não se sacrificar... Não deu, basta “trocar”... Esses paradigmas tornam-se condições bizarras do sentido da existência.
Como alcançar objetivos de longo alcance em uma sociedade de “curto prazo”? Como manter relacionamentos estáveis numa cultura de fragmentações? Como pode o ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida, quando muitos só serão episódios e esboços?
Vivemos numa “cultura de sensações”... A falta de consciência realista dos limites e do caráter passageiro do corpo, a banalização da morte, esta causando um mal-estar insuportável e promovendo respostas patológicas e preocupantes. O desencantamento da vida, a ansiedade excessiva, a depressão crônica (não se pode estar ligado todo o tempo na tomada do prazer que se busca) tornaram-se “normais”... Porém a felicidade moldada por essa cultura é cada vez mais difícil de ser alcançada. É “normal” recorrer-se ao Lexotan, Prosac e outros, quando esses, hoje, são as bengalas mais vendidas no ocidente.
Como afirma a teóloga alemã Dorothee Sölle: A sociedade do mundo material e produtivo levou o ser a perder a “capacidade de sofrer”. A realidade vira fumaça e o sujeito perde sua essência e se torna artificial...
De fato, devemos é saber cuidar de nossa Alma (latim: anima; hebraico: né·fesh; grego: psy·khé), e conseqüentemente de nossa Casa - Lar (grego: oikos). Tem muita gente des-animada e sem Lar. Cuidar da Alma é descobrir-se ovelha do Grande Pastor das ovelhas, é desconhecer Deus como extintor de incêndio – aquele que só lembramos quando estamos no meio do fogo - , é cuidar da nutrição do que traz a Paz apesar do que estamos passando agora. Cuidar do Lar é cuidar daquilo que emoldura e dá forma à vida. Para tanto, muitos permanecem “fora da casinha”... Um indivíduo diagnosticado como sadio que é colocado em ambiente doentio, perde sua sanidade, pois ele é ele mesmo e mas também suas circunstâncias.
O cuidado não pode ser apenas individualista e exclusivo, mas deve propor aos âmbitos da vida social, política e econômica, relações de um projeto a longo prazo... O cuidado com o Lar começa quando aprendemos a construir o Lar relacional.
Cuidemos da Alma e do Lar enquanto podemos ouvir o que diz o Espírito de Deus.
Quem tem ouvidos para ouvir; ouça.