segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A “Ombra ma fu” de minha Mãe...

Sabemos que a maioria das pessoas tem em seus primeiros passos sócio-educativos a presença pedagógica singular de sua própria mãe. Muitos também podem lembrar das primeiras canções cantaroladas e aprendidas, das primeiras orações ensinadas, e das primeiras palmadas sentidas ministradas pela mãe... Eu, por exemplo, me lembro com muito carinho e ternura da minha mãe me ensinando a cantar, a desenhar e a rezar. “Dona Deja”, trouxe para mim e meus irmãos, entre outras coisas, uma sensibilidade criativa para as coisas boas da vida. Uma mulher, que nascida no sertão, plantou um legado castanho e poético na nossa alma.
Neste momento em que escrevo, estou saboreando “Ombra ma fu” (da obra Xerses), uma ária de um compositor do barroco tardio do século XVIII, G.F. Haendel, interpretada pelo contratenor Andreas Scholl, e me veio à mente a imagem de minha mãe cantarolando enquanto cozinhava... Aquelas eram verdadeiras árias que ficariam marcadas dentro de meu coração de filho.
Cresci ouvindo todas as manhãs ouvindo uma rádio am de minha querida Recife, pois minha mãe tinha o hábito de preparar o almoço ao som das notícias do dia e das músicas que hoje chamamos de popularmente de “brega”. Músicas de linguagem simples, direta e ímpar, que retratam o cotidiano das classes populares. Naquela época o “som do povão” era defendido pelas estações de rádio que musicavam os cheiros da culinária caseira. Foi um tempo em que o “brega” me ensinou muito.
Viramos adolescentes e aquelas músicas, que inclusive cantávamos, passaram a ser lixo; viraram “coisa de pobre”. Esqueceríamos propositalmente delas e forjaríamos um preconceito a esse estilo popular, deixando de cantar suas músicas. Hoje, por vezes, apenas assoviamos ao lembrá-las, e às vezes numa festa de amigos só arriscamos cantá-las para sermos “engraçados”, e dizermos: “Vocês lembram dessa...?”.
Muitos que ficaram ou já eram “eruditos” em seu gosto musical, se renderam hoje a “riqueza cafona” da Banda Calypso, do Reginaldo Rossi, de Zezé di Camargo, de Latino e tantos outros que fazem “sucesso” pelos os meios que divulgam suas músicas. Diferentemente do tempo em que Leonardo Sullivam, Wanderlei Cardoso, Jane e Erondi, Odair José, Jessé, Waldick Soriano, Amado Batista e outros, ficaram eternizados por serem cantores do imaginário do “povão”.
Sempre digo que sou, quanto ao gosto musical, eclético. Acredito que música tem que ser boa, seja ela brega ou erudita, cada qual apreciada no seu momento oportuno. Gosto de ouvir Haendel, Mozart, Beethoven, Mahler, Vivaldi, mas também um bom Samba de Ari Barroso, um bom Frevo de Capiba, um Baião de Luiz Gonzaga, um Mangue Beat de Chico Science, um Chorinho de Pixinguinha, um Rock do U2, um Xote de Petrúcio Amorim, um instrumental Armorial do Sa-Grama, um progressivo do Pink-Floyd, um Hino Litúrgico cantado pela congregação, um Gospel de ministrado por Don Moen, uma Doxologia de Kleber Lucas, mas sem dúvida tenho meus momentos preciosos de música “brega”... Eles acontecem sem programação e por vezes brotam de um sentimento puro e lindo, como o que eu tenho quando lembro de minha mãe.
A cada “Dia das Mães”, em que o comércio faz questão de nos lembrar que elas merecem “presentes”, desperta em mim a imagem daquelas manhãs em que o perfume do tempero que vinha da cozinha, era recheado do cheiro e das árias maternas de “minha veia”... Então vem aos meus lábios uma bela música, e muito “brega” por sinal, de autoria de Carlos Colla e interpretação de Leonardo Sullivan, chamada “Mãe, um pedaço do Céu” :

Para mim sou grande / Mas pra ela pequenino
Sou adulto mas pra ela sou menino
Quando olha pra mim seus olhos brilham / Um amor feito de sonho
De alegria e de esperança
Se estou junto dela sou criança / O mundo é muito mais bonito
Sem pecado e sem perigo
E ninguém no mundo vai gostar de mim / Como ela gosta

Se eu estou errado ou certo não importa / Na alegria ou na tristeza ela está sempre comigo
Na hora do prazer me lembro dela /Mas na hora da tristeza e da saudade é meu abrigo
Por mim ela não mede sacrifícios / Pode parecer difícil que alguém ame desse jeito
Acontece que ela é a minha mãe
E mãe é sempre assim

Mãe, palavra que Deus inventou/ Um anjo que à Terra chegou
Voando nas asas do amor.
Mãe, palavra mais doce que o mel/ Talvez um pedaço do céu
Que Deus transformou em mulher.