terça-feira, 25 de agosto de 2009

O quase tudo...

Alguém me disse certa vez: Fábio, o dinheiro não é tudo, mas é quase tudo! Bem, o dinheiro é sempre objeto de discussões no que tange a sua importância na vida humana. O dinheiro é aquilo que para muitos traz felicidade, para outros tribulação, para alguns conforto e poder, para outros guerra e divisão. Muitos o adoram ante aos que o desprezam, mas todos concordam que dependem dele... Há, entretanto, uma verdade inquestionável para a realidade atual. A certeza de que ninguém vive sem dinheiro, porém, ele não compra tudo...

A palavra dinheiro vem do latim denarius, moeda de prata que valia dez asses, uma tradicional moeda de cobre. Por ser a moeda mais utilizada em Roma, tanto no Império quanto na República, o nome adquiriu valor genérico e passou a designar qualquer espécie de meio circulante. Do italiano vem o termo denaro que chegou até o árabe, que, em contato com os povos da Península Ibérica, importou a forma dinar. No fim da Idade Média, Portugal e Espanha chegaram a cunhar dinheiros de prata, e é por isso que nas traduções mais antigas do Novo Testamento para nosso idioma, Judas não vende Jesus por trinta moedas de prata, mas por "trinta dinheiros".

Porque será que existem pessoas que têm muito dinheiro e não são felizes, realizadas, amadas, fraternas? A pergunta então seria: Dinheiro é essencial?

Seguindo uma reflexão sobre o que é essencial para os seres humanos, podemos afirmar que existem coisas na vida que são essenciais e outras que são fundamentais. Trazer sentido para esta afirmação pode ser um caminho para trazer sentido para vida. Segundo o pensamento de Mario Cesar Cortella, o essencial é aquilo que não se pode viver sem, não se pode arrancar da vida humana, não se pode faltar imperativamente na essência de sua vida. O que não pode não existir. A amizade, lealdade, amor, sexualidade, fraternidade, liberdade são essenciais para a vida humana…

Já por outro lado, existem as coisas que são fundamentais, e essas são aquelas de dão “base”, dão “fundamento”, alicerçam para chegar ao essencial. São os degraus a subir, os sonhos a realizar, os desafios a vencer, os obstáculos a transpor, as oportunidades que não se pode deixar escapar. Não tê-los é dificultar muito as coisas. Mas tê-los, em si, não é o suficiente.

A carreira, por exemplo, é fundamental. Porém, de nada adiantaria chegar ao topo se não se consegue a amizade, a fraternidade, o amor… O fundamental é apenas a escada para chegar ao essencial. Dinheiro, por exemplo, não é essencial. É fundamental.

O problema é a forma como se localiza o dinheiro na vida. Muitas pessoas estão confundindo o lugar das coisas. Elas colocam as coisas fundamentais no lugar das essenciais e as essenciais no lugar das fundamentais. A complicação começa quando estamos desorganizando a locação do que é essencial e fundamental para a vida. Todas as vezes que o fundamental é mais requisitado, valorizado e abraçado do que o essencial, a vida começa a ruir...

A reorganização necessária do lugar das coisas essenciais e fundamentais torna a nossa vida mais simples. A simplicidade nos leva a saborear o essencial de uma forma singular. Podem-se buscar formas mais simples de ter prazer, coisas que não envolvem dinheiro, mas relações. Tudo aquilo que faz com que a vida, apesar de curta, não seja pequena e sim relevante!
O dinheiro é tudo ou quase tudo para quem é quase organizado...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Ombra Mai fù - Xerses (G.F. Haendel)





Ao contrário do que se espera de um tirano, o Rei Xerxes, logo na primeira ária da ópera, louva a beleza da sombra de uma árvore.
Ombra mai fù
Di vegetabile,
Cara ed amabile Soave più.

Nunca houve sombra
de uma árvore,
tão querida, amável e suave.

A “Ombra ma fu” de minha Mãe...

Sabemos que a maioria das pessoas tem em seus primeiros passos sócio-educativos a presença pedagógica singular de sua própria mãe. Muitos também podem lembrar das primeiras canções cantaroladas e aprendidas, das primeiras orações ensinadas, e das primeiras palmadas sentidas ministradas pela mãe... Eu, por exemplo, me lembro com muito carinho e ternura da minha mãe me ensinando a cantar, a desenhar e a rezar. “Dona Deja”, trouxe para mim e meus irmãos, entre outras coisas, uma sensibilidade criativa para as coisas boas da vida. Uma mulher, que nascida no sertão, plantou um legado castanho e poético na nossa alma.
Neste momento em que escrevo, estou saboreando “Ombra ma fu” (da obra Xerses), uma ária de um compositor do barroco tardio do século XVIII, G.F. Haendel, interpretada pelo contratenor Andreas Scholl, e me veio à mente a imagem de minha mãe cantarolando enquanto cozinhava... Aquelas eram verdadeiras árias que ficariam marcadas dentro de meu coração de filho.
Cresci ouvindo todas as manhãs ouvindo uma rádio am de minha querida Recife, pois minha mãe tinha o hábito de preparar o almoço ao som das notícias do dia e das músicas que hoje chamamos de popularmente de “brega”. Músicas de linguagem simples, direta e ímpar, que retratam o cotidiano das classes populares. Naquela época o “som do povão” era defendido pelas estações de rádio que musicavam os cheiros da culinária caseira. Foi um tempo em que o “brega” me ensinou muito.
Viramos adolescentes e aquelas músicas, que inclusive cantávamos, passaram a ser lixo; viraram “coisa de pobre”. Esqueceríamos propositalmente delas e forjaríamos um preconceito a esse estilo popular, deixando de cantar suas músicas. Hoje, por vezes, apenas assoviamos ao lembrá-las, e às vezes numa festa de amigos só arriscamos cantá-las para sermos “engraçados”, e dizermos: “Vocês lembram dessa...?”.
Muitos que ficaram ou já eram “eruditos” em seu gosto musical, se renderam hoje a “riqueza cafona” da Banda Calypso, do Reginaldo Rossi, de Zezé di Camargo, de Latino e tantos outros que fazem “sucesso” pelos os meios que divulgam suas músicas. Diferentemente do tempo em que Leonardo Sullivam, Wanderlei Cardoso, Jane e Erondi, Odair José, Jessé, Waldick Soriano, Amado Batista e outros, ficaram eternizados por serem cantores do imaginário do “povão”.
Sempre digo que sou, quanto ao gosto musical, eclético. Acredito que música tem que ser boa, seja ela brega ou erudita, cada qual apreciada no seu momento oportuno. Gosto de ouvir Haendel, Mozart, Beethoven, Mahler, Vivaldi, mas também um bom Samba de Ari Barroso, um bom Frevo de Capiba, um Baião de Luiz Gonzaga, um Mangue Beat de Chico Science, um Chorinho de Pixinguinha, um Rock do U2, um Xote de Petrúcio Amorim, um instrumental Armorial do Sa-Grama, um progressivo do Pink-Floyd, um Hino Litúrgico cantado pela congregação, um Gospel de ministrado por Don Moen, uma Doxologia de Kleber Lucas, mas sem dúvida tenho meus momentos preciosos de música “brega”... Eles acontecem sem programação e por vezes brotam de um sentimento puro e lindo, como o que eu tenho quando lembro de minha mãe.
A cada “Dia das Mães”, em que o comércio faz questão de nos lembrar que elas merecem “presentes”, desperta em mim a imagem daquelas manhãs em que o perfume do tempero que vinha da cozinha, era recheado do cheiro e das árias maternas de “minha veia”... Então vem aos meus lábios uma bela música, e muito “brega” por sinal, de autoria de Carlos Colla e interpretação de Leonardo Sullivan, chamada “Mãe, um pedaço do Céu” :

Para mim sou grande / Mas pra ela pequenino
Sou adulto mas pra ela sou menino
Quando olha pra mim seus olhos brilham / Um amor feito de sonho
De alegria e de esperança
Se estou junto dela sou criança / O mundo é muito mais bonito
Sem pecado e sem perigo
E ninguém no mundo vai gostar de mim / Como ela gosta

Se eu estou errado ou certo não importa / Na alegria ou na tristeza ela está sempre comigo
Na hora do prazer me lembro dela /Mas na hora da tristeza e da saudade é meu abrigo
Por mim ela não mede sacrifícios / Pode parecer difícil que alguém ame desse jeito
Acontece que ela é a minha mãe
E mãe é sempre assim

Mãe, palavra que Deus inventou/ Um anjo que à Terra chegou
Voando nas asas do amor.
Mãe, palavra mais doce que o mel/ Talvez um pedaço do céu
Que Deus transformou em mulher.

sábado, 22 de agosto de 2009

Charge do dia

Os “Turbinados”...

Tivemos o privilégio de ao final da primeira década do século XXI testemunhar duas imagens fantásticas. O mundo contemplou o nadador Cesar Cielo nadar em 21,08 segundos os 50 metros livre, e tornar-se o homem mais rápido da atualidade nas águas. Recentemente, quase como uma imagem extraterrena, todos também acompanharam pela televisão as imagens do corredor jamaicano Usain Bolt na prova dos 100 metros rasos, quando conquistou a marca de 9,58 segundos. Incrível...!

Até onde vão os limites do ser humano? Esse Limite existe, é claro! Entretanto, não podemos ainda mensurá-lo em todas as áreas. “Turbinar” os limites do corpo com tecnologia esportiva, com a evolução científica ligadas ao esporte, programas de treinamento mais adequados ao atleta são lícitos... Tudo isso parece mais familiar neste momento da civilização. Porém, vive-se o momento em que o limite é apenas um detalhe, e por isso muitos não resistem ao doping... Quem não lembra do corredor canadense Ben Johnson?

E quando o detalhe faz a diferença nas “competições” da vida moderna? Muitos estão em busca dos “turbinamentos” pessoais em outros segmentos. Hoje, mais pessoas normais estão tomando drogas para aumentar a concentração e tentar ficar mais inteligentes... Empresários, gestores, pessoas do mundo dos negócios estão chegando aos quarenta anos e adotando o uso de Ritalina, um remédio indicado para portadores de síndrome de déficit de atenção (TDAH). Mesmo sem sofrer da síndrome usam a droga para aumentar sua capacidade de concentração, pois chegam a trabalhar 12 horas ininterruptas chefiando e liderando dezenas de funcionários.

Ainda no mundo dos negócios estão aqueles que fazem uso de drogas como Donepezil, que é usado para reduzir a perda de memória, característica do mal de Alzheimer. Testes em pilotos provaram que essa droga aumenta a precisão e o poder de reação em manobras complicadas. Assim, os “turbinados” se drogam para conseguir vantagens sobre os limites de seus corpos e mentes. O que mais impressiona, é que tudo isso é feito de forma ilegal, pois são medicações com venda sob prescrição médica...

Os “turbinados” buscam regular a atenção, aumentar a percepção, o aprendizado, a memória recente, a memória de fundo, a capacidade de tomar decisões, e a linguagem. Os indivíduos saudáveis que usam drogas psicoativas estão tomando conta das raias da vida moderna, buscando ultrapassar seus limites para alcançar mais e mais “sucesso”. Essa prática seria equivalente ao doping dos atletas.

Chegamos a um momento em que o estresse e a falta de tempo são os obstáculos de uma vida que se deseja conquistar. Contraditoriamente, o trabalho de muitos não está fazendo-os chegar ao sucesso, mas levando-os a solidão e a morte. A qualidade de vida de muitos executivos e homens de negócios é péssima, e tem sido questionada diante do preço que pagam para alcançar esse “sucesso”. Os modelos de gestão têm sido questionados sob a ótica de uma vida mais equilibrada, valores saudáveis, espiritualidade, relacionamentos maduros e duradouros, e realização mais coletiva.

As pessoas estão percebendo que até para competir no mercado elas precisam treinar e cuidar mais de si, pois não se chega a lugar nenhum sem a prática de valores morais, espirituais. Todo treinamento leva tempo, suscita esforço, pede sacrifícios, mas leva ao hábito de ser feliz e descobrir o propósito maior de nossas vidas. E para ser feliz não existe doping.

Para chegar ao verdadeiro sucesso temos que estar bem treinados e tranqüilos.

Qual o seu propósito de vida, afinal? ...Tem certeza?

Boa corrida!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Mensagem de esperança for you

Entre a dureza e a sensibilidade

É lindo ver a valentia desse nordestino! Onde Vaqueiro derruba boi no braço, e conduz o rebanho cantando... É um mix de bravura e poesia, de dureza e sensibilidade.
O "Aboio" é o canto para o gado seguir o vaqueiro, a "Toada" é a poesia presente na vida...



aboios e toadas vavÁ machado



O mundo é dos espertos?

O mundo é dos espertos... Alguns anos atrás percebi que ao ouvir essa afirmação, por vezes carregada de arrogância por parte de alguns, que a mesma estava equivocada. Observando a vida com olhos mais maduros e atentando para o que podemos chamar de crescimento pessoal, reconheci, em tempo, que o mundo não é dos espertos. Os dedicados é que conquistam o pico das montanhas, e lá, desenham o mapa para outros o conquistarem também.
Como disse o autor do livro bíblico de Tiago: “Tende na conta de pura alegria, meus irmãos, quando virdes a encontrar-vos provações de toda espécie, sabendo que a vossa fé produz constância. A constância, por sua vez, cumpra a obra, a fim de que sejais completos e perfeitos, em nada deficientes”. Todo ser humano deseja melhorar em alguma coisa. De fato, existem muitas tribulações que perpassam o nosso caminho e, por isso, muitos acabam desistindo de realizar algo.
Quantas vezes você sonhou algo e diante das dificuldades desistiu do sonho? Como pensar então na realização do que sonhamos? Bem, não podemos negar que se vive em uma era de resultados deterministas e menos autênticos. O ser humano ainda representa um número... Entretanto, ele ainda não se perdeu capacidade de escolher vencer.
Ninguém sonha algo impossível de ser realizado. Pense agora em um sonho e perceba que o que você sonhou é passivo de realização. Existem muitos sonhos que o próprio Criador promove dentro de nós, esses são sempre possíveis e reais e necessitam de nossa perseverança para se concretizarem em qualquer área de nossa vida.
Quando a melancolia, o desânimo, a mágoa, o cansaço, a má vontade, a desmotivação pesam o nosso caminhar, parecem intoxicar nossa alma e fazer moradia em nós, o sonho começa a desmoronar. Assim, faz-se necessário dedicar-se, cientes de que toda vitória é precedida por algumas perdas e por nossa “não desistência”. Sonhar também é reagir, é aceitar perseverar na realização, e planejar como realizar. Perseverança é condição indispensável para os sonhadores.
Lembro-me que um dos anglicanos mais famosos da história recente da humanidade, Sir Winston Churchill. Churchill sempre foi sábio em algumas de suas citações. Certa vez ele disse: “O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificuldade.” Em uma ocasião a qual foi convidado para ser paraninfo de uma turma de formandos na Universidade de Oxford, levantou-se, foi ao púlpito e fez o seu discurso para os futuros profissionais com apenas três palavras: “Perseverem... Perseverem... Perseverem...”.
O mundo é dos espertos? Não, o mundo é dos dedicados! Persevere!

O Homo-Ludens que joga, decide...

Sempre que estamos abertos a novas possibilidades, percebemos que as oportunidades se transformam em “atalhos” para o início da realização dos desejos e dos sonhos. A capacidade de mudar o leme e traçar uma nova rota, seja na vida, no grupo, na comunidade, na empresa está engastada na capacidade de decidir.
Decisão é algo que para muitos não consta no dicionário de suas vidas. Existem pessoas que tem como resultado de sua educação, de sua história de vida, a infeliz dificuldade de tomar decisões. São indivíduos frágeis emocionalmente, dependentes financeiramente, oprimidos socialmente, apáticos espiritualmente, mesmo quando intelectualmente privilegiados.
Quem não conhece alguém assim? São aquelas pessoas que nunca decidem. São aquelas que os outros decidem por elas, e que nunca querem deixar a “zona de segurança”, pois não gostam de correr riscos. Porém, essas pessoas ou “enrugam”, ou são esquecidas, e ficam quase sempre pelo caminho.
Mas será que decidir é arriscar? Bem, nem sempre. Contudo, o risco deve ser bem visto e entendido para que as oportunidades sejam ampliadas e as potenciais perdas sejam diminuídas na hora da decisão. Dentre várias ferramentas que podem ser usadas para gerenciarmos nossas decisões, uma delas está na capacidade de ouvir experiências relevantes. A capacidade para mudar não está nos conselhos dados, nem nas boas intenções, mas está em algo que une as pessoas na experiência de partilhar soluções. Aliás, lembro sempre de quando o amigo, consultor e professor doutor da UFSM, Rolando Soliz Estrada diz, quando vai partilhar algo, com aquele singular sotaque: “Ouça bem! Vou dar uma dica! Conselho eu não dou; dou apenas dica...”. Com isso ele colabora com as oportunidades dos seus ouvintes produzirem, não reduzindo o risco das suas decisões.
O termo “risco” vem do italiano “risicare”, que por sua vez é derivado do baixo-latim “risicu, riscu”, que significa arriscar. O termo indica que o risco significa ousadia, já que permite uma opção, e não relegar os acontecimentos para o destino. O termo significa também a colocação do futuro a serviço do presente. Risco também significa desafio e oportunidade, sendo também ponto-chave da natureza da tomada de decisões.
Arriscar é parte do jogo da existência. Afinal, o ser humano é também Homo-Ludens. É do jogo que nasce a cultura (os animais também brincam e jogam), sob a forma de ritual e de sagrado, de linguagem e poesia, permanecendo subjacente em todas as artes de expressão e competição, inclusive nas artes do pensamento e do discurso, bem como no jogo jurídico, na acusação e na defesa polêmica, como também, na arte do combate e na da guerra em geral.
Quando uma criança não joga, não se desenvolve, não se aventura em algo novo, não alcança o desconhecido... Se a criança joga está revelando ter aceito o desafio do crescimento, de ter a possibilidade de errar, de tentar arriscar para progredir e evoluir. Porém, não se joga sozinho. Precisa-se conhecer as regra, ser ensinado a jogar, ouvir a dica de quem já joga a mais tempo, se relacionar e observar as possibilidades.
Assim como Deus decidiu por criar a tudo e a todos, um dia um grupo se arriscou numa nova possibilidade de viver, deixando as cavernas e assumindo riscos... Decidiu.
Eles saíram da “zona de segurança”, e você?
Quer uma dica? Lá vai: Nós chegamos até aqui por uma decisão...

Não, obrigado! Prefiro café...

Como bom nordestino, sou um bom tomador de café. Diariamente pela manhã, no almoço e no jantar sempre estou acompanhado de uma boa xícara de café preto. Dizem que o café é bom para evitar câncer de próstata, que é bom estimulante para quem quer produzir mais acordado durante a noite, dizem que melhora a vitalidade, a memória, a atenção e a produtividade. Além do que, a cafeína é um auxiliar no tratamento de doenças como o mal de Alzheimer.
Entretanto, o café me lembra a casa de minha mãe, o cheiro de minha família, a conversa preciosa à mesa antes de uma jornada diária, a um bom “bolo-de-rolo” pernambucano, aos amigos do trabalho, e as conversas com meu velho, regradas a um bom licor de jenipapo e cafezinho...
Bem, dizem que tudo em excesso faz mal, até café... Daí se conhece o limite entre o hábito e o prazer, o desgaste e o vício.
A variedade dos hábitos e comportamentos humanos tem se refletido nos excessos que acontecem no cotidiano da vida. Excessos de violência, de informação, de imagens, de desejos, de diferenças, de preferências tornam a vida ainda mais desgastante...
Antes a diversidade que a mono-cromatização da vida, porém, o excesso atual tem provocado uma crise que consiste na incapacidade de assimilarmos a exagerada “oferta”. Com isso aparecem as dificuldades de escolhas e de tomada de decisões. O medo de escolher errado e fracassar, ou de perder a “oportunidade” que passa é um dos grandes fantasmas da pós-modernidade...
Infelizmente vivi-se no propósito de nunca se estar satisfeito. O apelo dos dias atuais é de criar imediatamente sentimentos de desejos ou aversões nas pessoas. Jamais estará o ser humano satisfeito com uma ciranda interminável de ganhar e gastar, conquistar e perder, almejar e não se contentar e se arrepender...
O segredo do equilíbrio está na capacidade de contentamento. Contentamento não é acomodação e enrugamento, não é conseqüência de fazer ou ter. Contentamento é uma experiência do “mundo de dentro” e não do “mundo de fora”. É uma atitude interior.
Não se pode buscar a satisfação e felicidade responsabilizando os outros por isso. Não se pode projetar a felicidade ou a infelicidade transferindo para as pessoas ou às coisas uma tarefa que é própria de cada um. Muitos de nós transferimos às pessoas ou às coisas a responsabilidade de nos tornarem felizes ou infelizes.
Uma maneira de superar as irresponsabilidades que temos com o nosso “mundo de dentro” é vencer nossa insatisfação com o “mundo de fora”, a quem culpamos por tudo. Aceitar sinceramente a quem somos verdadeiramente e vivermos honestamente a nossa realidade no aqui e agora é um bom começo. Esse é o primeiro passo para descobrir o caminho do amor pessoal e da alto-estima. Mesmo diante do bombardeio dos excessos, uma pessoa contentada tem tranqüilidade para dizer não para aquilo que já disse sim...
Ter contentamento é requerer ser o que se é, nem mais nem menos. Isso não quer dizer ser conformado, mas sim resolvido. É ser feliz nas pequenas coisas da vida. Conquistar o amor próprio é gostar de café pelo simples fato de gostar de café, e não por que alguém diz que café é bom para a próstata. É tomar café pelo sabor, pelo aroma, pelo momento, pelo bom papo, pela história, pelo acompanhamento; e não pelo vício. É dizer: Não, obrigado! Prefiro café...

À procura de extintor e “fora da casinha”...

O que torna os nossos tempos tão sombrios quanto a busca humana pela plenitude da vida e o cuidado que devemos ter com esse sopro divino? Bem, podemos crer que muitas coisas intentam mais que o “prazer” que nutrirmos pela satisfação da nossa alma. Muitos são os convites para o “hedonismo” efêmero de nossos dias, e pouca é a experimentação daquilo que podemos diferenciar “prazer” de “satisfação”.
Vivemos num tempo de “impermanências”... A “normalização” dos rompimentos afetivos parece denunciar que os seres humanos não têm a capacidade de cuidar das dificuldades próprias de qualquer relacionamento a sua volta. Não se permite a necessária reflexão sobre nossas perdas, quando inevitáveis, e dos vínculos que fizeram e fazem parte da nossa trajetória pessoal. Modelos de sucesso passageiros, sem compromissos duradouros, que “ficam”, mas não permanecem, ocupam o lugar das metas de longo alcance.
Esses padrões privam o aprendizado, o amadurecimento, as descobertas caminhantes e os valores essências. Muitas vezes impedem que gerações conheçam suas raízes, histórias e narrativas que as precederam e as forjaram. Assassinaram o termo “longo prazo” em que se garantiam os projetos da vida. Hoje, pode-se mudar a todo tempo, fazendo projetos fragmentados e frívolos... A ausência de “longo prazo” corrói a confiança, a lealdade e o comprometimento mútuo.
Na era do “não existe longo prazo” frustram-se ferozmente os projetos familiares, profissionais, políticos e espirituais. Na família, por exemplo, aparece na compulsão pela “troca”. A busca do não se comprometer com relacionamentos duradouros e não se sacrificar... Não deu, basta “trocar”... Esses paradigmas tornam-se condições bizarras do sentido da existência.
Como alcançar objetivos de longo alcance em uma sociedade de “curto prazo”? Como manter relacionamentos estáveis numa cultura de fragmentações? Como pode o ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida, quando muitos só serão episódios e esboços?
Vivemos numa “cultura de sensações”... A falta de consciência realista dos limites e do caráter passageiro do corpo, a banalização da morte, esta causando um mal-estar insuportável e promovendo respostas patológicas e preocupantes. O desencantamento da vida, a ansiedade excessiva, a depressão crônica (não se pode estar ligado todo o tempo na tomada do prazer que se busca) tornaram-se “normais”... Porém a felicidade moldada por essa cultura é cada vez mais difícil de ser alcançada. É “normal” recorrer-se ao Lexotan, Prosac e outros, quando esses, hoje, são as bengalas mais vendidas no ocidente.
Como afirma a teóloga alemã Dorothee Sölle: A sociedade do mundo material e produtivo levou o ser a perder a “capacidade de sofrer”. A realidade vira fumaça e o sujeito perde sua essência e se torna artificial...
De fato, devemos é saber cuidar de nossa Alma (latim: anima; hebraico: né·fesh; grego: psy·khé), e conseqüentemente de nossa Casa - Lar (grego: oikos). Tem muita gente des-animada e sem Lar. Cuidar da Alma é descobrir-se ovelha do Grande Pastor das ovelhas, é desconhecer Deus como extintor de incêndio – aquele que só lembramos quando estamos no meio do fogo - , é cuidar da nutrição do que traz a Paz apesar do que estamos passando agora. Cuidar do Lar é cuidar daquilo que emoldura e dá forma à vida. Para tanto, muitos permanecem “fora da casinha”... Um indivíduo diagnosticado como sadio que é colocado em ambiente doentio, perde sua sanidade, pois ele é ele mesmo e mas também suas circunstâncias.
O cuidado não pode ser apenas individualista e exclusivo, mas deve propor aos âmbitos da vida social, política e econômica, relações de um projeto a longo prazo... O cuidado com o Lar começa quando aprendemos a construir o Lar relacional.
Cuidemos da Alma e do Lar enquanto podemos ouvir o que diz o Espírito de Deus.
Quem tem ouvidos para ouvir; ouça.

Qual será o Futuro da “Igreja”?

Onde está a linha que define o “corpo” do cristianismo da dita “instituição Igreja”? Que modelo vai resistir as dinâmicas daquilo que chamamos de pós-modernidade? Veremos nas vindouras décadas o fim do que chamamos de Igreja (fiéis em templos)? Ou a mudança dos seus conceitos? Que fôlego ainda tem a Instituição de propaga oficialmente a mensagem do Cristo? Estas perguntas geram muitas reflexões e apreensões sobre modelos existentes e outros que surgirão.
Gostaria de lembrar o que o teólogo Ed René Kivitz definiu, na sua opinião, quais serão as 10 principais possibilidades de igrejas no futuro no Brasil:
“Denominacionalismo dogmático - Igrejas tradicionais (batistas, presbiterianas, anglicanas, luteranas, metodistas, católicas e outras) que buscarão preservar suas doutrinas e sua tradição. Seguirão o que vem acontecendo na Europa, pois estas igrejas deverão ver a redução na sua quantidade de membros. No futuro, muitas destas igrejas poderão fechar, tornando-se bibliotecas e centros de cultura cristã; Pentecostalismo histórico - Igrejas pentecostais buscarão preservar o movimento pentecostal, com ênfase no poder e nas experiências místicas que caracterizam o movimento; Pós-pentecostalismo - Igrejas independentes e novas. São sincretistas, continuarão misturando religiões africanas, indígenas, características da cultura brasileira com a tradição cristã pentecostal e católica. Por pregarem um evangelho inventivo, que promete bênçãos materiais em troca da fé, comprometendo a mensagem do Cristo. Apesar disso, é um movimento que deve continuar crescendo; Igrejas com engajamento social - Comunidades católicas que têm como base a teologia da libertação e protestantes com base na teologia da missão integral. Continuaram como igrejas que procuram transformar a sociedade dando forte ênfase ao engajamento social. Como não fazem mediação entre a ação e a espiritualidade, diante de uma crise econômica elas definham; Cristãos nominais - Pessoas que a princípio vão continuar buscando mudança de religião e não mudança de vida. Ex-católicos, principalmente, que a princípio são atraídos por promessas de bênçãos materiais, mas tornam-se frustrados, e deixam de se comprometer com a igreja, sem deixar de se declararem “cristãos”. Tendência muito forte a crescer nos próximos anos; Comunidades independentes - Igrejas que continuarão a serem fundadas para corrigir desvios das igrejas de onde saíram seus fundadores. Elas tendem com o tempo à institucionalização e aos possíveis desvios que nasceram para corrigir; Igrejas nas casas - Deverão crescer muito o número de pessoas que não freqüentam, nem são membros de igreja (instituição) nenhuma, mas que reúnem-se com outros cristãos nas casas para estudar a bíblia, orar e manter a comunhão; Igrejas administradas como empresas - Embora seus líderes tenham boas intenções, continuarão como igrejas que utilizam “pacotes metodológicos” importados. Igrejas que seguem os métodos do G12, Igreja com propósitos e outros. Segundo Kivitz, estes métodos são a maneira como as igrejas se organizaram após crescerem, não o método que utilizaram para crescer. Estes métodos induzem as igrejas a terem o crescimento como objetivo principal. Por isso estes métodos são de gestão e não de crescimento; Igrejas-“impérios privativos personalistas” – Serão aqueles empreendimentos de homens visionários. Business. Igrejas com forte ênfase no marketing e propaganda, que divulgam suas marcas (vendendo produtos associados a elas, inclusive) e existem para ganhar dinheiro e juntar capital político. Kivitz cita o exemplo da “Marcha para Jesus” como um evento para “juntar capital político”. Segundo ele, por terem um “dono”, estas denominações estariam desclassificadas conceitualmente como igrejas; Igreja na informalidade – Serão um movimento não-insititucional. Comportarão os cristãos que aproveitam instituições, igrejas, missões, teólogos, sem se comprometerem com (ou se tornarem membros de) nenhuma instituição. É o cristão que, por exemplo, vai ocasionalmente a uma ou outra comunidade, dá seu dízimo para uma ONG, ajuda uma determinada Missão, mas não pertence a nenhuma destas expressões. Segundo Kivitz, este tipo de cristão tende a crescer nas próximas décadas, Seria o cristão que gosta de ser servido, mas não se compromete com o servir...”
Infelizmente, estamos olhando para o futuro da igreja como quem olha para o retrato... e não para a paisagem além da janela. Que Deus nos ajude a ver quem realmente somos como cristãos... Afinal, qual será o futuro da “Igreja”?

A Krisis e a decisão...

Vivemos um momento em que a palavra crise é a referência do cotidiano. Parece que estamos cada vez mais amigos do termo, que de amistoso não tem nada. Contudo, a maneira como o ser humano enfrenta a crise é o que o diferencia dos demais semelhantes. A crise pode ser um fim para uns, e um verdadeiro começo para outros.
De fato, o preço que se paga por não saber conviver com a crise (seja qual for a esfera) é marcado pelo descontentamento com a vida, pelo desânimo profundo, o conformismo constante e murmuração passiva...
A palavra “crise”, que tem origem no grego Krisis, significa separação, passagem estreita, e da mesma forma, é origem para a palavra “crivo” que separava o duto de água antigo em jatos menores. Esse termo na sua origem não tem uma motivação negativa e pode ser entendido como o inevitável momento de decidir.
Podemos ilustrar a crise como o momento em que o caminho se divide em vários e temos que decidir sobre qual devemos escolher seguir. Então, como podemos reagir à separação do caminho? Como decidir diante da Krisis?
Algumas pessoas usam como estratégia para se livrar das crises a “fuga pela tangente”, ou o “salto de banda”. É a ação do famoso jogo de cintura para sair de situações desconfortáveis e difíceis. Esse indivíduo está mais disposto a fugir do que enfrentar e resolver o conflito da decisão inevitável. Bem, infelizmente para esse, os outros decidem por ele...
Outros são aqueles que nunca acreditam na saída da crise. Diante de qualquer otimismo alheio eles sempre vêem o lado maléfico da crise. Com seu pessimismo, nunca acreditam no alcance do sucesso. Esses sujeitos se afundam mais e mais no poço em que se escondem e negam qualquer alternativa vitória sobre o problema, pois só saem da crise quando a única opção aparece: A derrota...
Não é necessário que sair em busca de uma crise para se viver. As crises sempre nos encontram e isso é inevitável. Bom é saber lidar com ela... Assim, outras pessoas vêem na crise a oportunidade de decidir e acertar a rota. São aquelas pessoas que percebem que há algo de oportuno e pedagógico na tomada infalível de decisão. A habilidade de decidir só surge quando perdemos o medo. O amadurecimento estratégico só brota quando praticamos decisões responsavelmente.
À medida que enfrentamos a crise do agora, ela nos ajudará a resolvermos conflitos da crise do amanhã com mais serenidade e maturidade. Isso é experiência. Isso é maturidade... Logo, quem não enfrenta a crise, não amadurece...
Podemos refletir sobre o fato de que a crise não é o problema em si, mas sim como ela nos atinge e nos afeta. Certamente, sua proporção está diretamente relacionada com a forma pela qual reagimos. Podemos fugir, podemos desistir, ou podemos enfrentar o problema à frente. É o “Turning Point”!
Todos nós já passamos ou passaremos por momentos difíceis, entretanto, o importante é que eles se tornem oportunidades de mudança, de crescimento, de amadurecimento em nossas relações internas e externas. Que esses momentos nos aproximem mais intimamente do Deus Criador de nossas vidas e das pessoas que nos cercam.
Não fujamos, não desistamos, mudemos o nosso olhar. Pode ser que mudando nosso olhar encontremos um caminho melhor para seguir diante da krisis da jornada. Avante!